O futuro da política brasileira

A crise política brasileira atual tem um componente conjuntural, mas afeta o estrutural.
O conjuntural é a cerrada batalha de Janot para derrubar o presidente atual. É movida mais pela vaidade de ser o Procurador Geral que derrubou um Presidente em exercício, do que pelo objetivo de salvar o Brasil da corrupção.

O poder foi assumido por um consórcio de "quadrilhas" ou de facção de malfeitores que usaram a autoridade para compelir empresários a contribuírem com a sua manutenção no poder, assim como aceitaram - sem constrangimentos - as propinas oferecidas, essas também para proveito pessoal. 

A Operação Lava Jato e suas ramificações detetaram os malfeitos realizados pelo consórcio enquanto liderado pelo PT e contribuiu para a sua deposição, sendo a direção assumida pelo outro consorciado, supostamente liderado pelo atual Presidente Michel Temer.

Todas as citações, denúncias, acusações e prisões até junho de 2016, se referiram a ações criminosas praticadas ainda na fase da liderança petista. Nenhuma das citações da mega-delação do grupo Odebrecht se refere à fase pós-Dilma, ou à fase Temer. Nesse sentido a Operação Lava-Jato teria sido bem sucedida ao estancar o esquema de corrupção na contratação de obras públicas. 

As obras públicas contratadas na fase Temer (ainda que poucas) estariam "livre de propina".

Todas as prisões de políticos - exceto uma - tiveram base em supostos crimes cometidos durante a fase PT. 

Geddel não foi preso por conta de abuso de autoridade que levou à sua defenestração do Ministério de Temer, mas de supostas ações criminosas enquanto Vice-Presidente da Caixa Econômica, nomeada por Dilma Rousseff. Mesmo eventuais ações consideradas como obstrução à justiça não foram feitas pelo Ministro Geddel, mas pelo "cidadão", e - supostamente - para evitar uma delação de um companheiro da fase Dilma.

Eduardo Cunha está preso e caso venha a fazer a colaboração premiada, não tem o que delatar sobre eventuais crimes de Temer e seu grupo, agora no poder. Tudo o que ele efetivamente sabe é sobre o passado, quando o PT detinha o poder.

Supostamente com todas as operações promovidas a partir da Lava-Jato, as prisões e condenações em primeira instância, a corrupção pública teria sido erradicada, ou pelo menos, estancada. 

A facção Temer assumiu o poder, mas estaria manietada para manter a continuidade dos esquemas de corrupção. 

Mas eis que emergem dois fatos interligados que indicam que o esquema continuou, em outras áreas diversas das obras públicas e da Petrobras.

O  primeiro foi a Operação "Carne Fraca" que trouxe à tona a corrupção nas atividades de regulação e fiscalização alimentar, envolvendo as duas maiores corporações nacionais do setor. E dentro do esquema mais tradicional do patrimonialismo. A chefia das fiscalizações é indicada por políticos. E esses cobram propinas para alimentar os caixas dos seus indicadores. Tirando uma parte para si.

O segundo - de maior importância e repercussão - partiu de uma suspeita visita de Joesley Batista ao atual Presidente Michel Temer, gravada por aquele. 
Um encontro absolutamente impróprio.

Uma parte da conversa mostra que o Governo não havia acedido às solicitações do empresário, dai as suas reclamações em relação ao Ministro da Fazenda, um ex-dirigente de uma de suas empresas, à Presidente do BNDES e outras queixas. 

Uma segunda é sobre amizades mantidas e ações com aprovação do Presidente: "tem que continuar". O que significa essa frase dá margem a toda uma série de ilações.

A terceira refere-se à confirmação do novo interlocutor representante do Presidente,  uma vez que o anterior - Geddel V Lima - havia deixado a função com a sua saída do Ministério. A partir dai a PGR, em conjunto com a Polícia Federal, usando o delator, armou um flagrante com o suposto novo interlocutor. 

O fato é que mesmo depois de 3 anos de Operação Lava Jato, com a prisão e condenação de alguns dos maiores empresários nacionais, o maior deles, manteve o esquema de corrupção. Já adentrando o Governo Temer. 

A maior parte dos fatos relatados por Joesley Batista e seu grupo, também se referem a fatos passados, principalmente, os financiamentos obtidos junto ao BNDES. Mas, em nenhum momento indicaram a sua continuidade. O BNDES estaria "livre de propina".

Já em relação à Petrobras restou uma suspeita, mal explicada. Joesley Batista teria acordado uma propina de R$ 500 mil semanais pela assinatura de um contrato da Petrobras com a Ambar, uma subsidiária do grupo, que gere uma termoelétrica a gás. O fato é que um contrato foi assinado e Joesley mandou entregar uma mala com os R$ 500 mil ao indigitado interlocutor do Presidente, o que foi devidamente documentado para dar margem à primeira denúncia do Procurador Janot contra o Presidente. Afinal a Petrobras está ou não "livre de propina"? Ainda há focos da doença? E com conhecimento e consentimento da cúpula? Por ordem de quem a Petrobras assinou o contrato, para que Joesley Batista - supostamente - cumprisse a sua parte?

Esse fatos indicariam que o Brasil ainda não tem uma Administração Pública inteiramente "livre de propina" e os esquemas continuaram, mesmo depois da destituição de Dilma Rousseff e da deposição do PT do poder. 

Essa continuidade do esquema deu origem à feroz ofensiva de Janot para derrubar o Presidente, agravando a crise política.

Mas o calendário conspira contra ambos. O mandato de Janot vai até setembro de 2017. Até lá ele fará sucessivas denúncias para afastar o Presidente. E esperar que o STF o destitua definitivamente. 

Temer poderá permanecer por mais tempo, mas o seu mandado se encerra em 31 de dezembro de 2018  e não há nenhuma possibilidade de continuar.

Portanto, em 2019, o Brasil estará livre dos "dois briguentos", que estão numa disputa encarniçada (sem ilações) não levando em conta os seus reflexos sobre o Brasil.

E como será o futuro do Brasil sem essa "guerra"?

(cont)



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