A quarta revolução industrial é uma falacia (2)

A revolução industrial, qualquer que seja o número, não vai mais mudar a economia industrial do mundo. Isso porque a sua importância relativa dentro do PIB, em todo o mundo está decrescendo e não é mais o principal setor empregador. 

A 4ª Revolução Industrial é uma tentativa da indústria manter a sua importância, mas as principais mudanças no mercado não são as tecnologias que ela alardeia, mas o dominio crescente dos serviços. E a transferência do poder do mercado para o setor terciário. 

Um dos casos mais emblemáticos é o setor de vestuário e calçados, onde a indústria não "empurra" o mercado, mas é "puxado" pelo setor comercial e de marca. 

O setor de calçados sofreu uma grande transformação, na realidade uma revolução. Mas não foi pela tecnologia da informação - embora essa tenha viabilizada a revolução - tampouco por mudanças nas fontes de energia, organização ou processos produtivos, como ocorreram nas revoluções industriais anteriores. 

Foi liderada por uma empresa cujo negócio é a marca. A marca está associada ao design do produto, mas o mais importante é a marca e não o design, tampouco a fabricação do produto.

A Nike se transformou na maior empresa de calçados do mundo, sem ter fábricas e produção própria. Tudo é terceirizado. Evidentemente não teria conseguido fazer isso sem utilizar a tecnologia da informação para transmitir e controlar a produção dos seus calçados, em diversas partes do mundo. 

É o detentor da marca que comanda a cadeia produtiva, "puxando" a produção e "empurrando" a comercialização através de franquias ou licenciamentos. Ela não vende os produtos para o comércio revender. Ela é "comprada". É o comércio que a busca para atender aos compradores que buscam o produto nas suas lojas. 

O seu principal investimento é no marketing para transformar os seus produtos em objeto de desejo do consumidor. Suas pesquisas e inovações são todas direcionadas para atender ou atiçar os desejos do consumidor. O investimento nos processos industriais é para viabilizar o produto desejado. 

A indústria tem que ir a reboque da líder da cadeia produtiva (ou de valor). O maior valor agregado e pago pelo consumidor não está no material ou na produção industrial, mas na marca. Para a valorização desta, a investe pesadamente no marketing. Que não se limita à publicidade, mas envolve - principalmente - o patrocínio de esportistas talentosos, cultuados pelo mercado.

O setor de vestuário, por sua vez, é liderada pelo varejo. Primeiramente, a indústria foi dominada pela modista. As ou os grandes modistas, aceitos pelo mercado, assumiram a liderança da cadeia produtiva e contratavam os fabricantes. Alguns investiram em produção própria. A Casa Dior é - ainda - a maior empresa mundial do setor de vestuários. 

Outras adotaram o mesmo modelo de negócios da Nike, como ocorreu com as principais marcas de jeans: Lee, Levy Strauss, Diesel e outras.

Para enfrentar a concorrência as grandes empresas do setor foram sucessivamente um busca da produção industrial, com menor custo, instalando ou licenciando unidades industriais com custo mais baixo do trabalho. Em alguns casos, com exploração extrema do trabalhador, em regime similar ao da escravidão.

Essas empresas promoveram a globalização, dispersando a produção industrial em todo o mundo e reduzindo substancialmente os empregos do setor nos paises mais desenvolvidos e industrializados.

A 4ª Revolução Industrial é uma tentativa desses países - ditos centrais - de recuperar a produção industrial de vestuário e calçados, para os seus territórios. Em alguns casos pode conseguir, mas não há recuperação do emprego têxtil. Esse recuperação é feita com elevados investimentos em tecnologia, com economia da mão-de-obra. 

A 4ª Revolução Industrial tem paralelos com as Guerras Mundiais. Foram guerras européias, apesar da segunda ter uma expansão asiática, mas tornadas e aceitas como mundiais.

A 4ª Revolução Industrial não é uma revolução mundial, embora vá afetar diversas partes do mundo. É uma revolução dos paises desenvolvidos que se desindustrializaram e buscam pela tecnologia se reindustrializar. 

Porém o "resto do mundo" resiste, preferindo manter o trabalho humano, mesmo mal remunerado. 

A "quarta revolução" vai (ou melhor já está mudando) as formas das pessoas viverem. E isso vai afetar muito mais os serviços do que a indústria. E afetar muito mais os empregos nos serviços do que na indústria.

(cont)





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