sábado, 31 de janeiro de 2015

Uma manada de elefantes coloridos

Que os estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília seriam elefantes brancos, depois da Copa era aposta certa. Natal era séria candidata. Mas dos demais esperava-se que "se dariam bem". Não estão dando, e agora que começaram os campeonatos estaduais as situações incômodas estão ficando evidentes. O Maracanã não quer receber os jogos do estadual e prefere ficar ocioso a receber jogos, com prejuizos. É um caso típico de "elefante branco" ocioso, mas consumindo pouco para ser usado e apresentado somente nos grandes eventos: as finais dos campeonatos. No caso, torcendo para que o Flamengo seja finalista.É o único jeito de encher o Maracanã, e mesmo assim a preços populares.

Fortaleza,  Recife e Salvador,  todos sob gestão privada, insistiram para os clubes locais jogarem no estádio, firmando contratos exigindo o seu uso, com contrapartidas de adiantamentos financeiros, e agora também querem se livrar dos ônus. Fortaleza bate os recordes de públicos, superando 60 mil espectadores em jogos decisivos, mas no estadual se juntar mais de 6 mil será muito. Todos contam com os shows para compensar e obter os retornos econômicos. 

A amortização dos financiamentos do BNDES estão sob risco.

O Mineirão é o único que mantém uma média elevada de público, com os jogos do Cruzeiros e eventualmente do Atlético Mineiro (em jogos decisivos). Apesar do público e das receitas dos jogos, o padrão europeu estabelecido no contrato de concessão faz com que o Estado tenha que complementar sempre a receita da concessionária. O estádio não é nem será um elefante branco, mas um péssimos negócio  do Governo do Estado.

Sobraram os estádios privados. O Itaquerão vai bem, mas o Corinthians só vê a cor do dinheiro, porque passa por ele, mas não fica. Vai tudo para pagar as dívidas. 

Novas estratégias da Petrobras

A Petrobras está sob fogo cerrado.
Ela mesma reconhece a ocorrência de irregularidades em contratações o que requer a correção de valores dos ativos registrados na sua contabilidade, assumindo a ocorrência de superfaturamentos e, sobrevalorização dos mesmos.

As correções não são simples. Determinar o superfaturamento dependeria de confissões dos contratados dos valores adicionais, com o compromisso de devolução. Isso dificilmente irá ocorrer, apesar do instrumento da delação premiada, e mesmo que viesse a ocorrer não seria imediata e a Petrobras já estava atrasada na divulgação do seu balanço trimestral referente ao terceiro trimestre de 2014. A auditora se recusa a firmar o seu relatórios sem as devidas ressalvas. A Petrobras não aceita as ressalvas propostas pela auditora.A Price, como boa parte da sociedade quer saber o montante dos desvios. Já estão começando a perceber que será inviável. 

De toda forma, as tentativas de apuração já estão demonstrando que as perdas com os erros estratégicos são muito superiores ao dos desvios por corrupção. 

Uma alternativa usual para reavaliação dos ativos é o valor de reposição, ou o método do "valor justo": quanto custaria fazer hoje o mesmo investimento, no mesmo ativo. Ou por quanto um terceiro estaria disposto a comprar esse ativo. Esse método envolve dificuldades decorrente das mudanças de circunstâncias. Por exemplo, a refinaria de Pasadena foi adquirida num momento em que o petróleo já estava caro, mas com perspectiva de subir ainda mais, o que efetivamente ocorreu. Mas dois o preço desabou o hoje está bem abaixo daquele momento. 

Uma conta simples partiria do valor da produção anual, com base na capacidade, o tempo de operação, a produtividade e preço atual dos derivados de petróleo, a rentabilidade e estimar o valor presente. 

Nessa conta, o valor atual seria muito inferior ao da compra, mas não significa que toda diferença foi desviada.

O mesmo problema ocorre com os equipamentos comprados para as refinarias e os custos dos serviços. As circunstâncias hoje, com a queda brusca do valor do petróleo mudaram muito em relação ao período de instalação. E também as diferenças não significam total irrigação da corrupção.

De toda forma as equipes internas, a Diretoria e o Conselho de Administração não chegaram a um acordo e com isso a Petrobras divulgou o balanço trimestral, sem as devidas correções, permitindo que corressem versões sobre o valor a ser deduzido. Uma bagatela de 88 bilhões de reais. Esse valor refere-se à sobrevalorização, mas a mídia difundiu como sendo o "valor da corrupção". 

A consequência é que as ações cairam o valor de mercado da Petrobras despencou e toda a mídia ficou repetindo, acriticamente, os mesmos números, com a mesma versão. Os 88 bilhões de reais passaram a ser aceitos como o tamanho do "petrolão".

Quando não é apresentada uma versão oficial consistente prevalecem as versões dos outros. Exatamente o que a Presidente ordenou que se combatesse. Na primeira bola disputada o Governo perdeu e já levou o gol.

Com a insistência de Dilma em manter Graça Foster na Presidência da Petrobras, a empresa segue ladeira abaixo.

Adotou medidas necessárias, apesar das repercussões negativas. Cancelou definitivamente a construção de duas refinarias que, jamais iriam ser construídas, mas foram prometidas para composição politicas com Governadores. O do Ceará, ligado ao mesmo grupo politico reclamou. 
O do Maranhão, por ser oposição a Sarney a quem foi prometido a refinaria por Lula, não se manifestou. Já sabia que não "era para valer" e uma "enganação" com o povo maranhense. Mas por razões políticas preferiu não denunciar o engodo. 

As duas refinarias em andamento tiveram as obras suspensas. O "segundo trem" (denominação de um sistema de refino) da Refinaria Abreu e Lima não será construída. agora. As obras do COMPERJ serão restruturadas, com a continuidade apenas de algumas obras.

Com isso muitos contratos serão cancelados e não haverá novos contratos. Com isso os eventual problema de restrição de participação dos investigados pela Operação Lava Jato em novas licitações é minimizado: não haverá novas grandes licitações de obras de terra na Petrobras. 

As empreiteiras contratadas pela Petrobras enfrentarão problemas financeiros e trabalhistas. Não receberão tudo ao que acham que tem direito, terão dificuldades de levantar recursos em banco e à medida em que as obras forem acabando e os contratos encerrados, não terão outros e irão demitir os empregados, tanto os profissionais qualificados como os peões.

Os demitidos irão aos sindicatos para mobilizar e ir às ruas. Tentar reverter as demissões.

O Governo poderá utilizar essas manifestações para a preservação das empreiteiras, evitando a sua inabilitação.

Esse será um dos principais confrontos sobre as consequências da Operação Lava Jato.

(sobre isso trataremos em outro artigo)

A Petrobras irá ainda desacelerar os investimentos com a exploração e produção de petróleo off-shore, atingindo principalmente as referentes ao pré-sal.

E também irá reduzir a sua produção, para restabelecer um equilíbrio entre as despesas e receitas operacionais da produção. A prioridade não será mais a autossuficiência e os recordes de produção, mas o equilíbrio econômico-financeiro.

Com a redução do preço internacional do petróleo e a manutenção dos preços da gasolina e do diesel no mercado nacional para repor as perdas anteriores com o congelamento dos preços, para efeito de conter a inflação, quanto mais a Petrobras importar em vez de produzir, mais ela ganha: corta o custo da produção e ganha mais na diferença entre importação e venda interna.

Essa nova estratégia é possível, com ganhos de rentabilidade, dadas as condições do parque produtivo da Petrobras. Ela ainda tem vários poços antigos que estão com produção baixa, mas em operação para ajudar a alcançar as metas de produção. O fechamento dessas e transferência de equipamentos e equipes para poços mais produtivos, gera um hiato na produção. Ela pode aproveitar para uma intensificação dos programas de manutenção e não precisará fazê-lo de forma acelerada ou emergencial. Os custos serão menores, embora continue impactando os balanços e o caixa. 

A redução da produção interna, o abandono das metas ambiciosas e onerosas, assim como do objetivo de autossuficiência nacional são medidas para melhorar o caixa da Petrobras, a sua rentabilidade e distribuição de dividendos. E ainda absorver as eventuais baixas contábeis da sobrevalorização dos ativos.

Deveria ter feito desde o final do ano passado. Perdeu um mês, mas já está fazendo para tristeza dos que lutaram pelo "petróleo é nosso".

O problema mais crítico será a versão predominante sobre o fato. A medida correta, empresarialmente, poderá ser mais um gol contra. 


E a Petrobras e o Governo Dilma, apanhando de goleada. 





sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A sustentação pela participação social

Dilma foi eleita com o voto dos eleitores mais pobres que estão gratos com a melhoria da sua vida, por conta dos programas sociais. Mas pesou sobre eles as ameaças tanto veladas como explícitas de que os adversários iriam acabar com os programas.

Essa população é mobilizada no período eleitoral, por meios televisivos, mas principalmente pela presença direta dos políticos, cabos eleitorais, ativistas partidários, lideranças associativas ou comunitárias e funcionários contratados para as campanhas. 

As campanhas envolvem paralelamente uma grande mobilização econômica, que não se sustenta fora do período eleitoral, que pode ser caracterizado como "entressafra" eleitoral ou política.

Essa massa volta a ser um contingente silencioso, fora alguns pequenos grupos de ativistas que são caracterizados como movimentos sociais.

A maioria se recolhe, volta-se para as suas atividades cotidianas, sem qualquer participação política e, também, por falta de recursos, desinteresse ou falta de competência, das redes sociais. Resta a rádio peão.

Por outro lado, a população com maior renda, mantém-se mais conectada com o que ocorre no país, acompanhando o noticiário da mídia, a difusão do mesmo por comunicação oral, o "boca a boca" e também a rádio peão. Atualmente o principal meio é a rede social viabilizada pela internet.

Os políticos e sua atuação são fortemente influenciados pelo que a mídia publica, ainda que o alcance dela seja limitada. Por isso a caracterizamos como "opinião publicada" que é apenas uma parte visível da opinião pública. Na entressafra os eleitores de maior renda, dominam inteiramente a cena.

Essa população de maior renda se dividiu durante o período eleitoral, mas votou majoritariamente em Aécio Neves e muitos eleitores ainda não se conformam com os resultados da eleição. Como eles tendem a ignorar ou desprezar os eleitores mais pobres, não entendem como a opinião publicada, tendo votado maciçamente em Aécio, ele não foi eleito.

A mídia promove a desconstrução do Governo de Dilma, enquanto a maioria silenciosa não sai dos seus grotões. As suas lideranças querem sair, ir aos centros decisórios, porém não contam com recursos financeiros para tal.

Essa percepção, mesmo antes das eleições levou a Presidente Dilma, ainda no seu primeiro mandato a apoiar e trazer os movimentos sociais para o seio do Governo, de forma apoiar as suas propostas e se contrapor as pressões dos adversários, apoiados pela mídia. Era o papel de Gilberto Carvalho.

Para legitimar a presença deles em Brasília, legalizar o custeio da sua movimentação, criou, mediante decreto, a Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social . 

A sua iniciativa foi obstada pelo Congresso que entendeu que o Sistema estabelecia a democracia direta, sobrepondo-se à democracia representativa que era praticada pelos congressistas eleitos. O entendimento foi que a representação do povo para a discussão e definição de políticas públicas seria feito por representantes de entidades designadas pelo Poder Executivo. 

Apesar do Governo ter a maioria no Congresso, não conseguiu evitar a derrota que significou a revogação do decreto. Deputados da base aliada votaram a favor da revogação, comprando a versão de que os Conselhos propostos retiravam poder do legislativo.

Neste segundo mandato, com a vitória apertada, tendo que fazer concessão ao mercado financeiro, para a ajustar a economia com as medidas que combateu durante a campanha e a opinião publicada contra, é fundamental para a sua sustentação a presença ostensiva e ativa dos movimentos sociais em sua defesa e apoio.

Para isso poderá tentar restabelecer a Política Nacional de Participação Social, sob a forma de Medida Provisória, ou buscar um novo mecanismo. 

A questão crucial não é o mecanismo, mas o apoio da base aliada. Encaminhando ao Congresso conseguirá aprová-lo?

Para aprová-lo precisa que os movimentos sociais cheguem a Brasília para pressionar os congressistas. Quem irá financiá-los para que cheguem e fiquem alguns dias na Capital Federal?

Seria o PT, mas esse teria recursos financeiros para tal empreitada? Tem "sobras de campanha"?

Os movimentos podem ser descentralizados, mas para terem algum efeito precisam ser nas grandes cidades, com cobertura da mídia.

Dai se chega à questão central. Dilma precisa dos movimentos sociais para lhe dar sustentação, diante dos seus problemas e da pressão da oposição e dos adversários, muitos deles internos. Não bastam declarações de apoio, precisam ser visíveis, com cobertura da mídia, para gerar ou demonstrar o apoio. 

A política nacional de participação social seria apenas um motivo, um argumento para a mobilização. Teria apelo suficiente para a mobilização? Provavelmente não. 

As eventuais postergações do Minha Casa, Minha Vida provavelmente terão maior apelo. E as ameaças de acabar com o Bolsa Família, maior ainda.

A mensagem principal seria de que a oposição quer derrubar a Presidente, ou torná-la refém para reverter as conquistas sociais, ocorridas nos últimos anos e só os movimentos sociais seriam capazes de conter essa tentativa.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Quem cuida da água?

No seu discurso de abertura do segundo mandato, que deveria ser de trabalho e não mais eleitoral, como podia e foi o da posse,  Dilma não saiu do palanque. Tratou da crise da água de forma política, dizendo que apesar de não ser responsabilidade federal, iria ajudar os Governos Estaduais, responsáveis pelo abastecimento a vencer a crise. Cometeu vários erros, usuais na mídia, mas não compatíveis com uma governante. Demostrou ignorância. Leu um discurso escrito por João Santana e não pelos "goshwriters" para os pronunciamentos gerenciais.

A gestão da água tem um espaço vazio que foi assumido pelo Governo Federal, ao criar a ANA. O controle sobre o uso da água dos corpos naturais, depende da jurisdição do rio. Existem rios estaduais e federais. Não existem rios municipais.

Há problemas de escassez em duas das maiores bacias hidrográficas federais do sudeste: a do Piracicaba, que começa em Minas Gerais e tem a maior parte em São Paulo e do Paraiba do Sul, que começa em São Paulo, segue pelo Rio, passa por Minas Gerais, volta ao Rio e desemboca no mar, quase no Espirito Santo.

Para usar a água, quando ela está em nível normal, é preciso a autorização e licença do órgão estadual ou federal. Mas quando a água escasseia, quem gerencia a escassez?

O Governo Federal ocupou o espaço vazio, mas agora que a escassez está sendo muito mais grave que o previsto, quer tirar o "corpo fora". Comandado pela Presidente, que só consegue enxergar os efeitos político-eleitoral do problema.

O planejamento de longo prazo do uso das águas no território nacional deveria ser do Governo Federal. Este até iniciou o processo, contratou alguns inventários e estudo, mas teve descontinuidades, não cuidou devidamente da ANA, e tampouco elaborou planos de contingência para enfrentar a crise. A ANA, como outras agências foi aparelhada e vista como local para empregos bem remunerados e estáveis. Não um órgão para regular e gerir um bem essencial.

Para garantir o uso da água para geração de energia, produção agrícola e abastecimento animal e humano é preciso fazer a reservação, com dois objetivos: formar estoque para enfrentar os períodos de estiagem e regularizar as vazões para evitar enchentes, com graves prejuízos  patrimoniais e humanos. 

Para efeito de reservação, caberia ainda estudar, planejar e executar obras de transposição de bacias. O que torna as decisões mais complexas e difíceis, pois envolve a gestão do balanço hídrico entre bacias.

Até meados dos anos setenta essa visão "obreira" era hegemônica e sem contestações. A partir dai o movimento ambientalista passou a contestar o modelo e o Governo Federal "empacou" sem conseguir resolver os impasses, consolidar um modelo para o longo prazo, adotando soluções de curto prazo. 

Com as demoras ou atrasos na execução da obras, o Brasil ficou despreparado para enfrentar a estiagem prolongada, que só se repete a cada século, mas dentro desse, nos anos atuais.

Era provável a sua ocorrência, mas os Governos e a sociedade preferiram desprezar, para não arcar com os custos adicionais para atender a uma ocorrência secular. Agora os custos serão maiores. 

Para o setor elétrico, os Governos buscaram soluções mais amplas em termos espaciais e temporais. Acabaram sendo prejudicadas por disputas políticas, com uma primeira restruturação e depois uma nova restruturação, resultando no confuso modelo atual. Mas um ponto não foi modificado. Foi até consolidado e tem evitado males maiores: a criação e gestão nacional do sistema elétrico nacional, através do Operador Nacional do Sistema - ONS. Tem sido um gestor da escassez da geração de energia, porém, com opções entre as fontes hídrica, termo e alternativas.

Com relação à água, foi criada a ANA, prevista a gestão por bacias hidrográficas, porém não há um Operador Nacional das Águas. Não há quem vá gerir a escassez e buscar soluções de compensação através das áreas com abundância de água. A gestão nacional (que não pode ser confundida com federal) requer ainda o uso e reuso da água.

Constitucionalmente a titularidade e consequente responsabilidade pelos serviços públicos de abastecimento de água potável e coleta e tratamento de esgotos é do Município. Não é do Estado membro, como disse equivocadamente a Presidente. A atribuição é municipal e não estadual. O Município é responsável pelo abastecimento mas não tem água própria. Depende de uma "água estadual ou federal". 

O que existe de fato é uma distorção, com os Estados assumindo a operação desses serviços mediante concessões impostas aos Municípios pelo poder financeiro, promovido pelo Governo Federal. 

A SABESP é uma concessionária de serviços municipais. O poder de estabelecer as tarifas e taxas dos serviços é do Município. Não é nem do Estado que vem tentando se apropriar também desse poder através da uma Agência Reguladora Estadual. Mas que também deve agir como delegada dos Municípios. Não deveria ser assim, mas é.

Quem tem o poder de estabelecer o rodízio, cortes seletivos, autorizar redução de pressão na tubulação que resulte em desabastecimento é o Município, não o Estado e muito menos a SABESP. Quem tem o poder de estabelecer tarifas diferenciadas, criar sobretaxas e autorizar bônus é o Município. 

O Estado resiste em reconhecer esse poder municipal. A SABESP, COPASA, CEDAE e outras muito menos. Acham-se o "dono do pedaço".

Diante da crise não cabem manter as disputas, falsas generosidades - do tipo, não tenho nada a ver com isso, mas estou disposto a ajudar - e buscar soluções coletivas e solidárias.

Do ponto de vista da população, do consumidor a necessidade principal está na racionalização do uso, com maior reuso e eliminação dos desperdícios. E uso seletivo da água, segundo a sua qualidade. 

O Governo Federal cabe informar e utilizar os dados de que já dispõe, para dizer onde tem água em abundância e como essa poderia ajudar a minorar a escassez em áreas de maior consumo.

Com os Governos Estaduais caberá estabelecer planos de longo prazo para planejar as transposições necessárias e organizar um Operador Nacional das Águas. Não é um questão técnica, mas estabelecer um pacto entre as diversas visões, forças e interesses. 


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Ambiguidade reveladora

O discurso de Dilma que marca, efetivamente, o início do seu mandato, confirma o esperado e não desejado: nem tanto ao céu, nem tanto ao mar.
Reforçou a necessidade do equilíbrio fiscal e deu recado aos seus Ministros: contenham os gastos, não esperem mais verbas para os seus programas, tanto os antigos, como novos. O seu papel não é expandir, mas fazer mais com um pouco menos que já tem. Usem a criatividade para serem mais produtivos. É querer demais da sua "equipinico" ministerial. Os menos piores acham explicações, os mais, se calam.
Esperado, mas nenhum deles gostou. Talvez só a trinca econômica, que teve o respaldo para as suas tesouradas. 

Mas, sempre mas: os programas sociais serão preservados. Os ajustes não prejudicarão as conquistas sociais. Os direitos dos trabalhadores serão preservados. Também esperado, mas não desejados. As Centrais Sindicais irão esperar pelo cumprimento das promessas. A equipe econômica bateu forte. Ela "assopra devagarinho". Não gostaram, mais não podem reclamar muito.

Colocou à venda a versão de que está e irá fazer o projeto vencedor nas eleições. Quem quiser que compre. Mais uma vez, com  o respaldo de João Santana, deu sinais de que vai insistir na tese goebeliana, de repetir incessantemente, até que seja aceita como verdadeira. Será que o PSDB vai dizer, com sucesso, que o projeto dela é o derrotado nas eleições? Limitou as contestações da oposição. O máximo que ela pode dizer, e já o disse através de Arminio Fraga, que faria de forma mais intensa. 

Adotar o projeto derrotado e dizer que foi o vencedor, que foi o que o povo escolheu, é muita "cara de pau", mas continuará sendo a grande marca.  No seu segundo mandato mais do que no primeiro.

Reforça essa posição quando diz para não aceitarem e combaterem as versões e boatos dos outros, da oposição. Só valem as versões oficiais. Todos devem estar alinhados às versões oficiais. Devem combater os boatos maldosos dos outros. Precisam defender as versões governamentais. Se tiverem alguma dúvida, consultem o João Santana, o Ministro oculto, mas presente o tempo todo. 

Ela não deverá se expor muito. Só vai se pronunciar em grandes eventos montados, para apresentar uma peça do marketing político. Com todas as armadilhas perpetradas por João Santana, para ter a reação da mídia no sentido desejado. Nos próximos meses e talvez ano, o céu estará sempre com balões de ensaio. 

Em paralelo, ocorreu em São Paulo, um caso típico desse processo: planejado ou não.

Um diretor da SABESP, com tempo suficiente para se aposentar, fazendo todas as ressalvas possíveis, disse que em teoria, para reduzir o consumo em 15 m3 por segundo, seria necessário um rodízio de 2 x 5. Ou seja, dois dias com água e cinco sem, durante a semana. Foi uma mera conta teórica. 

A mídia não teve dúvida: difundiu que vai ter racionamento rigoroso. Ninguém, oficialmente, disse isso. Mas é a versão que irá prevalecer, para aflição da população e incentivar as medidas de redução e reuso da água. 

Nada mais que um balão de ensaio para "ver se pega". 

Se pegar não vai ter racionamento compulsório. Se funcionar o Governador vai dizer que evitou o racionamento. Se não funcionar, vai dizer que alertou a população com antecedência e foi obrigado pela falta das chuvas em cima do Cantareira.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O Rio vai ficar sem água e luz?

O Sistema Cantareira virou o principal termômetro para acompanhar a "febre da falta d'água". Impulsionado pela mídia, milhões de pessoas estão a toda hora buscando informações sobre o nível das águas do Cantareira. Alguns transformando em obsessão, em neurose. E cada vez mais preocupados com as baixas sucessivas.
Ficam aliviados quando não desce e felizes quando sobe um pouquinho. E torcendo pela chuva. Essa vem, mas não muda a situação. A impressão disseminada entre a população é que chove, mas não em cima da Cantareira. 

Chove lá também. Mas se chove porque não melhora a situação? Há várias explicações: o solo está muito seco e precisa absorver primeiro a água antes de chegar às represas. O calor está elevado e a água evapora mais rápido, sem a mata ciliar, e outras.

Não há transparência na informação, porque o Sistema Cantareira é formado por diversas represas interligadas por túneis e na última a água é bombeada para atender a população. 

Em que represa é feita a medição divulgada ao público. É uma média das represas: aritmética ou ponderada? Na primeira ou na última? 

A última pode estar baixa porque a água está sendo retida nas anteriores. Para repor o "volume morto". 

Não acompanho as novelas, mas sei que tem um tal de comendador que está se fazendo de morto. O volume morto do Cantareira está é muito vivo.

Focado sobre o Cantareira não se presta atenção às demais represas, algumas em situação pior.


Represa de Paraibuna - Agência Globo
As águas do Paraiba do Sul começam em São Paulo e são as principais fontes para abastecer de água a população do Rio de Janeiro e ainda gerar energia.

As primeiras represas do sistema, que ainda estão em São Paulo e já parte no Rio de Janeiro estão quase secas. A energia gerada a partir da Usina de Santa Branca já foi paralisada. A energia do Rio de Janeiro vai ser suprida por outros Estado, pelo sistema integrado.

A cidade do Rio de Janeiro é abastecido pelo Guandu, que retira água do Paraiba do Sul. O Rio que percorre todo o Estado, passando por um pedaço de Minas Gerais, até desaguar em São João da Barra, quase no Espirito Santo também está secando. Os agricultores do Norte Fluminense já estão sentindo os efeitos da seca. 


Agora que os dados sobre as represas que abastecem o Rio de Janeiro estão sendo divulgados, os cariocas também vão ser contaminados pela neurose da falta d'água. 

E vão se somar aos paranoicos do "sem banho". Os fedorentos sairão às ruas para protestar em conjunto? Se forem vai ser um "horror"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A crise da indústria brasileira e sua superação

A balança comercial brasileira foi deficitária em 2014, uma condição que não ocorria desde 2000. De um lado a indústria foi a mais deficitária e de outro as commodities agrícolas e minerais, com os preços unitários em queda, não foram suficientes para cobrir aquele déficit. 

As análises apontam para baixa produtividade, baixo grau de inovação, câmbio supervalorizado, carga tributária, insuficiência de infraestrutura e outros fatores macroeconômicos, tratando a indústria como uma entidade monolítica. Ela não é, contemplando diversidades em que cada fator influencia de forma diferenciada. 


Esse tratamento da indústria como se fosse uma unidade decorre da visão estatistica. Nos números das estatísticas oficiais do comércio exterior ou da contabilidade nacional (a que apura o PIB). a indústria é uma categoria que soma os resultados de todos os seus subsetores.


E essa indústria, como um todos,  é responsabilizada pelo déficit por não se integrar nas cadeias produtivas globais. Tais análises não entram em detalhes sobre essa não inserção, tendo sido transformado num mantra, repetido sucessivamente. O que é uma falácia. Já escrevemos reiteradas vezes aqui que a "indústria brasileira" está ampla e profundamente inserida nas cadeias produtivas globais.


Duas considerações prévias devem ser feitas, a respeito.


A primeira de que a categoria estatística indústria significa indústria instalada no Brasil e não indústria brasileira, no sentido de propriedade. Essa indústria instalada no Brasil tem uma grande participação de multinacionais, que diante das mesmas questões acima listadas, não tem necessariamente a mesma reação das indústrias sob controle de brasileiros.


A indústria dos brasileiros, efetivamente, está pouco inserida nas cadeias produtivas globais. Já a indústria das multinacionais são, no Brasil, uma etapa da sua cadeia produtiva global. Portando estão inseridas, ao contrário do que se propala.


A segunda consideração preliminar é que cadeia produtiva global é de uma empresa. Não é um fenômeno aleatório ou natural, que é captada pelos estudos. A cadeia produtiva global é uma organização do processo produtivo criada e gerida por uma multinacional.  Com o controle de todas as suas etapas. Tem dono, com nome e sobrenome. 


Temos então a cadeia produtiva da Fiat, ou da Syngenta, da Siemens e de outras tantas multinacionais. Todas elas presentes no Brasil.


Quando se compara a competitividade global não é da indústria como um todo, mas de uma unidade nacional da multinacional com outra localizada em outro país.


Ou seja não se trata de comparar a competitivdade  da indústria brasileira com a mexicana, mas da das unidades da Volkswagen o Brasil, com as instaladas pela mesma multinacional no México. Isso vale para a comparação com as unidades na Alemanha, na Bélgica, na Turquia e qualquer outro país onde a multinacional esteja instalada. 


As decisões do local de produção e o mercado a ser atendido não é nacional, mas da Direção Regional ou do próprio board central da multinacional.


Se a Volkswagen não exporta os seus carros para os EUA ou a Fiat importa carros da sua fábrica no México, não é fruto da competência ou incompetência comercial da direção dessas unidades regionais, mas porque a direção superior do grupo empresarial assim decidiu, comparando as condições competitivas de cada uma das suas unidades e a lucratividade de cada operação.


O prof. Antonio Delfim Neto, em entrevista á Folha de São Paulo (publicada em 2 de novembro de 2014) diz que "das 500 maiores multinacionais 400 estão no Brasil. Você precisa de um diálogo com essa gente. Precisa saber o seguinte: o que você precisa para voltar a exportar do Brasil? Mas não pode fazer isso reduzindo o lucro delas" .


As cadeias globais podem ser vistas segundo duas perspectivas: o da produção ou do suprimento. Visto do lado da produção, a indústria no Brasil está inserida, abriga as unidades produtivas das multinacionais para suprir o mercado nacional e de paises vizinhos.  Significa que está na ponta final da cadeia produtiva. 


Vista do lado do suprimento, a unidade produtiva compra muitas partes e insumos da mesma cadeia produtiva, mas produzidos no exterior. 


A indústria no Brasil está inserida na cadeia produtiva, mas não na cadeia de suprimento. Significa que é importadora, mas não exportadora. O resultado é o déficit comercial.


Entre as questões que influem nas condições de competitividade duas são relevantes: a inovação e a produtividade.


Diz-se que a indústria brasileira não é competitiva porque inova pouco. Porque aplica poucos recursos em pesquisa & desenvolvimento. O que é outra falácia.


As multinacionais instaladas no Brasil investem em pesquisa & desenvolvimento, inovam, mas essas ficam dentro do grupo. Os resultados do esforço inovativo não é disseminado, não é democratizado, não é socializado, não é nacionalizado. É apropriado individualmente, privadamente. 


E a inovação pode ser aplicada na unidade brasileira, como nas demais unidades do próprio grupo. A inovação pode ser globalizada, mas nos limites do grupo empresarial que alcançou a inovação. 


Cada vez mais inovação não é um produto nacional, mas empresarial. 


E se uma inovação aplicada pela unidade no México não é aplicada no Brasil, não é porque aqui não se investiu em P&D para chegar aos mesmos resultados, ou a resultados melhores: é porque a direção mundial resolveu não aplicar. Vale o inverso: uma inovação na unidade brasileira não lhe dá vantagem em relação à mexicana, ou outra qualquer. Porque se for boa a direção mundial a leva para as demais unidades. 


Ou seja, dentro das cadeias globais inovação não dá vantagem de uma unidade regional sobre outra do mesmo grupo. A vantagem seria em relação aos concorrentes que, mesmo instaladas no mesmo país, onde foi desenvolvida a inovação não tem acesso a ela.


Portanto é uma falácia afirmar que a indústria brasileira não inova porque não investe em pesquisa & desenvolvimento. Pode valer para as indústrias de propriedade de brasileiros, mas não para as multinacionais. Pode valer para pequenas inovações, pontuais, mas não para as significativas inovações que afetam profundamente a competitividade.


A introdução de inovações na produção da multinacional no Brasil não decorre da P&D, mas da decisão da direção mundial em introduzir a inovação na sua produção no Brasil. 


A produtividade do trabalho na unidade brasileira é inferior ao de outras unidades em outros paises. É um fato real e verficável. Mas os diagnósticos nem sempre são corretos.


A principal causa apontada é a qualificação do trabalhador brasileiro, com menor grau de educação. É também um fato real, mas não é a causa principal da baixa produtividade.


A causa principal está na pequena escala de produção da unidade fabril brasileira. 


Quando a direção mundial da multinacional decide implantar no Brasil uma unidade produtiva para atender apenas ao mercado nacional e vizinhança, dimensiona a sua capacidade de produção para o tamanho e perspectivas desse mercado e em função desse tamanho, define o grau tecnológico. 


Quanto menor a escala, menor o grau tecnológico, maior o uso de mão-de-obra de menor qualificação, baixando o nível de produtividade. Ao contrário, quando maior a escala, maior o grau tecnológico, maior a produtividade da mão-de-obra e o requerimento de pessoal mais qualificado. 


A qualificação da mão-de-obra não vem antes da demanda. Ela é puxada pela demanda.


Havendo a demanda há o interesse das pessoas se qualificarem, pois representa, no mínimo, melhor remuneração.


Uma das restrições, no entanto, é a falta de base educacional formal, para esse avanço de qualificação. Ou seja, a carência da educação de base. 


A qualificação da mão-de-obra é uma questão de treinamento e as próprias empresas investem nesse treinamento para ter o pessoal qualificado. O que pode inibir essas inciativas é a visão de que o investimento em treinamento será ineficaz porque os candidatos não tem base.


Na prática há uma diversidade de situações: as multinacionais atraem os trabalhadores com maior base e os qualificam. As demais ficam com os de menor formação, ou ficam na espera de que o setor público ou o mercado os formem.


O resultado estatístico final é - efetivamente - uma produtividade menor: mas com grande desigualdade.


Se a direção mundial da multinacional decide instalar uma unidade produtiva no Brasil, para não perder este importante mercado, define uma escala xx, já prevendo complementar o atendimento do mercado nacional com importações.


Se essa unidade for planejada para suprir o mercado global, terá uma escala, digamos de 5 xs, ou seja, cinco vezes maior , o que permitirá, por outro lado, incorporar maior tecnologia. Consequentemente, maior produtividade. 


Em síntese: o principal fator que influi na produtividade é a escala de produção. É a escala de produção que define o grau de tecnologia a ser instalada.


E a escala depende da destinação planejada da produção.


A instalação de uma grande fábrica da Fiat em Goiana, Pernambuco é emblemática nesse sentido. 


Dentro da sua estratégia mundial a direção definiu a instalação de uma unidade de suprimento mundial: que atendesse à perspectiva de crescimento do mercado brasileiro, mas também do mundial.


Para atender à expansão do mercado brasileiro poderia se limitar à expansão da sua unidade em Betim, Minas Gerais. Mas para uma unidade mundial o espaço disponível era insuficiente.


O Governo de Pernambuco ofereceu vantagens tributárias e físicas para a instalação da nova unidade da Fiat em Pernambuco, dentro do complexo portuário-industrial de Suape.


Mas para uma unidade de suprimento mundial a Fiat não encontrou uma área ampla e foi se instalar em Goiana, na divisa com a Paraiba, cerca de 70 km. distante do Recife.


Mas nem Lula, tampouco Eduardo Campos, os mentores da instalação disseram que se tratava de uma plataforma de exportação. 


Para a Fiat uma aposta de alto risco, pois se baseia na expectativa de que o Governo mude a sua política industrial, voltando-se tambem para fora. 










A água do camihhão pipa

Usei ontem o caso da água distribuída pelos caminhões ou carro pipa para mostrar que a crise da água não é geral, mas da água encanada, da água distribuída pelas redes, ou seja, a água suprida pelas concessionárias de serviços de água (e eventualmente também de esgotos), ou seja, das SABESPs, COPASAs e outras.

Se a crise for geral, com escassez total da água, não adianta buscar a alternativa do carro pipa porque esse não tem onde buscar a água. Talvez a enormes distâncias. Como no exemplo da energia, teria que ir buscar na Argentina: Só como piada. 

Se o caminhão-pipa traz e distribui a água é porque essa existe. Mas onde está essa água que o motorista ou proprietário do caminhão-pipa retira? Essa água é tratada, indagam os leitores?

Não, não é tratada, porque se for tratada pela concessionária o carro-pipeiro avulso tem que pagar pela água e não teria lucro. Ou estaria "roubando" a água da concessionária, furando a adutora. Ou ainda, poderia provocar um vazamento na tubulação para coletar a água. 

Ele pode buscar a água numa nascente e nesse caso a água seria potável, mesmo sem tratamento. É uma solução limitada e também sujeita à escassez. Se a estiagem é prolongada as nascentes também secam.

A principal fonte do carro-pipeiro é um curso d'água ainda com água ou a represa da concessionária, retirando água não tratada. Portanto não potável.

Nas cidades de São Paulo, do Rio de Janeiro e outras, o cidadão pode optar por ter o gás de cozinha por canalização ou usar o "caminhão de gás", que traz e troca os botijões. A situação é similar. De qualquer forma ambos os fornecedores precisam ter uma fonte.

A água trazida pelo carro ou caminhão-pipa não precisa de grandes investimentos em adutoras, caixas d´água, redes de distribuição e outros. O seu investimento é o caminhão, com as suas tubulações e bombas. E o custo principal o combustível para rodar, além da depreciação e amortização do investimento. Tem mais flexibilidade e pode ir buscar a água em locais mais distantes. 

Da mesma forma que o "caminhão do gás", o carro-pipa pode ser adotado como a solução usual e rotineira para o abastecimento domiciliar da água. Mas em muitos casos irá requerer instalações especiais para receber a água e encher as caixas d'água. 

Uma alternativa é que parte desse serviço seja assumido pela própria concessionária, como forma alternativa de abastecimento de água potável.

Isso poderá reduzir a ansiedade e angústia das pessoas que temem a falta d'água e ficam ligadas na televisão ou na internet para acompanhar a situação diária dos reservatórios, principalmente o da Cantareira, em São Paulo: que, provavelmente, estão sendo manipuladas.

O caminhão pipa é solução, mas pelo "amor de Deus" não coloquem Beethoven no meio, que não tem nada a ver com isso.








domingo, 25 de janeiro de 2015

Vou poder tomar banho? Quente?

Vai, e sem remorsos, desde que não fique tempo demais debaixo do chuveiro.

A água não vai acabar. Mas vai ter racionamento. Ou melhor, em São Paulo, já vem tendo. Só não vai ter rodízio com cortes compulsórios, comunicados prévia e transparentemente.

E a água vai ficar muito mais cara. 

Água está escassa, mas existe o suficiente para atender toda população da Região Metropolitana de São Paulo, mesmo que não chova à cântaros, em 2015. 
Mas haverá muito preconceito com relação a algumas soluções: a principal fonte para substituir o Cantareira será o reuso da água resultante do tratamento de esgotos nas Estações de Tratamento de Esgotos e o uso da água da Represa Billings, atualmente poluido.

Os preconceitos formados com relação a essas fontes. vão levar algumas pessoas a indagar: se eu tomar banho com essa água vou ficar mais limpo ou sair do banho "cheirando merda?" Posso beber essa água? Vai sair limpo e pode beber. Como diversos europeus.

Se as soluções são sabidas, por que não foram adotadas antes? 

Por uma série de razões, que não se restringem à falta de planejamento, à má gestão, ou à falta de recursos para investimentos. A origem está na visão amplamente difundida de que o Brasil tem água em abundância. concentrando 12% da água doce existente no mundo.

Se o Brasil tem água em abundância, por que economizar, por que reutilizar? Essa era a cultura predominante.

Banhos demorados, varrer calçadas com jato d'água, lavar o carro todo final de semana, foram hábitos incorporados no dia a dia.

Agora com o risco de escassez é preciso racionar. Mas não basta, tampouco é a mudança mais importante. No dia a dia, o mais importante é incorporar e desenvolver a cultura do reuso da água: usar a mesma água, diversas vezes, para diversas finalidades. 

Nos condomínios e mansões, a coleta e armazenagem da água da chuva.

Quem mora em áreas nos cumes - ou próximo a esses - dentro das cidades, tem que se organizar comunitariamente para criar um sistema local de captação e armazenamento da água da chuva. Com a escassez da água, a da concessionária não vai chegar com regularidade.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A doutrina de suprir a água por encanamento

A crise da água é, na realidade, a crise do sistema de abastecimento da água por rede.

Durante muitos anos a população se abasteceu de água por poços individuais. Ou iam buscar a água no chafariz do largo. No interior, principalmente em áreas rurais, as famílias ainda se abastecem da água dos poços, ou quando tem facilidade, dos próprios rios e demais cursos d'água.

Esses meios são considerados primários e atrasados. A modernidade é caracterizada pelas redes de água, a partir de uma captação num corpo d'água, ampliada por reservação, adução, ou seja, transporte até uma estação de tratamento para um novo transporte até uma caixa d'água para ser distribuída por ampla rede até os domicílios. Com o apoio de bombas elevatória, uso da gravidade, geração e controle das pressões.
Com isso as famílias tem a água na sua torneira, sem necessidade de ir buscá-la. A água chega em sua casa. É só abrir o registro, que saía a água.
É essa água suprida por uma concessionária dos serviços de água que está em risco de faltar. Como decorrência da falta de chuvas e insuficientes investimentos em reservação. O principal foco das críticas aos Governos é a falta de investimentos em reservação, complementada pelos demais investimentos na segurança e expansão da rede de distribuição.

Se as chuvas fossem abundantes as represas existentes estariam cheias e atenderiam a toda demanda. Com pouca chuva há necessidade de mais represas para armazenar a água da chuva. São esses investimentos adicionais que a população, os políticos opositores e a mídia reclamam e criticam a sua falta.

Organizado como negócio, o objetivo da empresa concessionária dos serviços de água e esgotos é maximizar o fornecimento. A seu sucesso é determinado pela expansão sucessiva de usuários, pelo aumento do consumo e pelos lucros. 

Tendo lucros vai ao mercado captar recursos, sob forma de ações e, captado, torna-se refém dos acionistas. Precisa apresentar resultados positivos todos os trimestres. Se for uma empresa privada, com dois trimestres sucessivos de resultados negativos, os acionistas trocam os dirigentes. As grandes concessionárias estaduais como a SABESP, de São Paulo e COPASA de Minas Gerais, lançaram ações e debêntures no mercado e priorizam os investimentos com resultados a curto prazo. Os de longo prazo foram preteridos.

Os investimentos em reservação de grande porte, que levam de 4 a 5 anos para serem concluidos e sem garantia de uso e geração de receita foram sucessivamente postergados. 

Não interessa à concessionária atender áreas periféricas com baixa densidade de moradores, onde o custo de instalação é elevado e sem possibilidade de retorno econômico. Essas áreas são atendidas em função de subsídios públicos.

Dentro dessa concepção não interessa à concessionária a reutilização sucessiva da sua água depois do ingresso na residência ou fábrica, tampouco a reservação domiciliar da água da chuva. Ela ganha pela água que entra no domicílio ou estabelecimento, passando e sendo medido pelo hidrômetro. 

Em São Paulo, a SABESP - empresa estadual, concessionária dos serviços de água e esgotos na maioria dos municípios do Estado, é mais importante e tem maior poder do que a Secretaria de Recursos Hídricos que, em tese, seria a responsável pela gestão das águas no Estado.

Essa configuração institucional e cultural, diante de uma estiagem nunca antes ocorrida nos últimos 100 anos, gerou essa situação de esvaziamento das represas da SABESP e o risco da falta de água nas torneiras das casas.

Apesar da extensa estiagem que, a esta altura já dura 3 anos, com agravamento a cada ano, não falta água na Região Metropolitana de São Paulo. A população é induzida a acreditar que toda água vem do Cantareira e se esse secar a cidade vai ficar sem água. É uma impressão falsa.


Se o Cantareira secar de vez uma parte da cidade, efetivamente vai ter problemas maiores no suprimento da água. Em algumas áreas vai, efetivamente, faltar água.

A maior parte da cidade vai continuar com água e isso vai gerar uma movimentação de pessoas. Muita gente vai ter que ir tomar banho na casa de familiares ou de amigos. 

A cultura implantada e já consolidada de que o suprimento de água nas cidades deve ser feito pelo sistema de rede torna a população e a economia inteiramente dependente das águas da chuva que caiam ou alimentem as represas. 

Para que não falte água nos domicílios e estabelecimentos comerciais, de serviços e industriais é preciso melhorar a produtividade da água disponíveis, pela sucessiva reutilização. Um litro de água original deve ser utilizada e sucessivamente reciclada para a sua reutilização. 

A cultura da reutilização é ainda incipiente, com alguns casos de reuso em condomínios e estabelecimentos econômicos. A SABESP só incentiva o reuso da água que passa por ela, ou seja, pode ser cobrada.

A reciclagem também pode ser promovida pela concessionária que é também a responsável pela coleta e tratamento de esgotos.

A água utilizada vai para a estação de tratamento de esgotos ou diretamente para os corpos d'água. No caso de São Paulo há dois grandes coletores da água usada: o rio Tietê e o sistema Billings-Guarapiranga.


A água da chuva, supostamente limpa, também cai sobre a Billings ou nas encostas que levam a água para a represa. O grande volume de água dilui a poluição e a torna limpa e até potável. Quando a carga das água poluidas é muito grande, ou o volume das chuvas pequeno, a represa toda fica poluida. A represa Billings era um local de recreio para se nadar, para velejar, nos anos cinquenta. Hoje se tornou uma represa interditada para essas práticas. 

Muito da água que não cai sobre o Cantareira, cai sobre a Billings, mas essa não é - ou não poderia ser - aproveitada para o abastecimento. Depois de muita resistência o Governo parece ter acedido em utilizar as água da Billings para reforçar o abastecimento da rede. Envolve obras de transposição e de maior tratamento. 

Nesse caso pode-se dizer que, efetivamente, a questão não é da falta de água, mas de investimentos.

Diante da falta de água da rua (como a população caracteriza a água abastecida por rede) uma solução que muitos usam ou querem é a contratação do caminhão pipa. Mas o caminhão pipa não gera água: ele é apenas um meio alternativo ao suprimento da água. Se ele traz a água ele foi buscá-la em algum local onde existe. Onde é isso? Em muitos casos um braço da Billings: onde a água não é tão poluida. 

O caminhão pipa é um caso concreto que demonstra que não falta água, no geral. Falta a água da SABESP, falta a água da rua, falta a água cujo suprimento continuado deveria ser responsabilidade do Governo. 

Um bom ou mau projeto? (4) - Reindustrialização

Dentro da perspectiva de que o Brasil para se tornar um país desenvolvido precisava ter uma indústria própria. Até os anos 80 a indústria fo...