terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - superação da violência?

O futebol tornou-se um negócio mundial trilionário. Porém o futebol brasileiro, apesar de sua força no campo, segue como um negócio modesto, sem ter conseguido superar os problemas estruturais e operacionais.
A esperança era que com a Copa 2014, no Brasil, o seu futebol, assumisse a sua face de negócios, compatibilizando a sua economia com as suas condições em campo. E inserisse melhor o setor dentro da macroeconomia, com sigifnicativa participação dentro do PIB. 
A principal expectativa era de que com os novos estádios, construídos ou reformados para a Copa, poder-se-ia aumentar o volume de espectadores nos estádios, com valores de ingressos mais elevados, trazendo de volta as famílias.
Isso foi alcançado durante a Copa das Confederações e, nos primeiros jogos do Campeonato Brasileiro nos novos estádios, mas a saturação foi rápida.
Três são as suspeitas: a primeira é que o público frequentador dos estádios não tem renda suficiente para uma frequência repetida e constante. A outra de que os jogos não tem suficiente qualidade e emoção para manter a atratividade do público. Mas uma terceira é considerada a razão principal.

O problema crítico para ampliar as receitas dos ingressos está na violência promovida pelas torcidas organizadas. Essas são patrocinadas pelos clubes que acham importante ter o apoio de uma torcida organizada para acompanhar o time em jogos fora da sua base.
Mas a tendência ao fanatismo e à violência transforma esses grupos em gangs que querem resolver tudo na base da "porrada", provocando ou respondendo a brigas, gerando cenas deprimentes acompanhadas pela televisão e afastando as famílias dos estádios. 

Para ampliar o público nos estádios é preciso eliminar a presença desses grupos tendentes à violência. Os países europeus conseguiram, com proibições e penalizações rigorosas, recuperando  os seus públicos nos estádios.

Um elemento econômico adicional está nos patrocínios master nas camisas. O risco do seu logo estar na camisa dos briguentos ou vândalos. A ampla cobertura pela mídia, mostra tanto as vitrines como as vidraças. Esse risco pode inibir os patrocinadores, que podem durar muito além do término do contrato para uso durante os jogos. Os torcedores continuam usando as camisas com os logos antigos. 

Duas são as dificuldades principais para conter as organizadas: a primeira é o apoio dos dirigentes dos clubes que acreditam na necessidade e importância dessas torcidas organizadas.

A segunda é o medo da elitização do futebol que seria uma consequência inevitável do desenvolvimento do futebol como negócio. O futebol é considerado um esporte popular no Brasil e deveria preservar a presença da população de menor renda nos estádios. 

A elevação dos preços dos ingressos reduziria a presença das organizadas, as quais, sem os patrocínios dos seus clubes, não teriam condições de maior frequência aos jogos. 

Aumentando os preços afastaria esse público de menor renda, precisando substituí-los atraindo os de maior renda dispostos a pagar os valores maiores. Mas para isso eles requerem maior segurança e o afastamento dos "brigões".

Ou seja, proibir as organizadas para que a classe média frequente os estádios.  Pode ser preconceito ver nas torcidas organizadas pessoas de menor renda, porém há ressentimentos incubados que se manifestam em revoltas explícitas e violentas. São pessoas que se sentem oprimidas pela sociedade e querem se extravasar publicamente. E dentre elas há também pessoas de maior renda.

Com as cenas de violência no recente jogo entre o Atlético  Paranaense e o Vasco em Joinville, transmitidas para todo o mundo, em função da proximidade da realização da Copa do Mundo, em 2014, duas mudanças importantes ocorreram: a primeira a sustação de uma tendência baseada numa concepção correta, porém inconveniente de parte de promotores do Ministério Público de que os jogos por serem eventos privados devem ter segurança privada, não cabendo a intervenção da polícia militar, ou de qualquer órgão da segurança pública.

Não há segurança privada preparada para conter grandes massas. E cabe indagar se deve ser preparada? Qual é o risco de evoluir para o predomínio das seguranças privadas, substituindo a segurança pública?

Embora um evento privado, envolvendo grandes massas oponentes deve ser policiado e controlado apenas por segurança privada?  Pode-se delegar a ela o poder de prisão? Diante dos riscos de crimes, como furtos, agressões que medidas preventivas a policia deve adotar. Onde deve ficar de prontidão? dentro ou fora do estádio? Para ser eficaz, em grandes estádios ela tem que ficar dentro. 

O promotor que orientou a ausência da polícia militar dentro do estádio, em Joinville, cometeu um erro, embora de boa fé, e deve sofrer as consequências do erro.

A outra grande mudança está sendo a atuação das polícias na identificação e prisão dos envolvidos, usando tecnologias científicas. A identificação facial é uma tecnologia em uso em outros paises, sendo um dos principais instrumentos para o controle das restrições aos "baderneiros".

Não adianta proibir o ingresso deles nos estádios, se não há mecanismos de identificação prévia para controlar a proibição.

O processo de identificação dos envolvidos nas brigas, ainda foi pouco científica, mas representa um grande avanço. 

Um legado econômico inevitável será a "classemediatização" do público nos estádios, uma vez que os empreendedores dos estádios querem e precisam de retorno dos investimentos. Precisam de um ingresso médio mais elevado, com o risco de não conseguir o volume de público necessário.

O público nos jogos da Copa das Confederações e os dados macroeconômicos, dos pibs e dos pib per capital das cidades sede indicam um potencial.

Não conseguirão esse público sem superar as já referidas condições básicas: evitar a violência nas arquibancadas e a melhor o desempenho em campo. 

O desempenho em campo não é apenas um problema dos jogadores, mas de gestão dos clubes, pouco profissionais, com visão de curto prazo e crença na solução mediante grandes nomes. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - marcas brasileiras

A visibilidade mundial da Copa do Mundo, com os seus jogos acompanhados por bilhões de pessoas nas suas televisões é a grande oportunidade para "vender" marcas em ampliar a comercialização dos seus produtos. 
Não é por outro motivo que Coca-Cola, McDonalds, Sony e outras são patrocinadores permanentes da FIFA. 

Quem melhor soube aproveitar a oportunidade foram os coreanos do sul que  conseguiram dividir a realização dos jogos em 2002 com o Japão e lançaram ao mundo algumas das suas grandes marcas: LG, Hyundai e Kia. A sua quarta grande marca, a Samsung, só chegou ao futebol mais recentemente hoje é uma das patrocinadora da Copa. 
Os japoneses consolidaram a marca Sony e patrocinam o Campeonato Mundial de Clubes, mediante a Toyota. A NEC vende a sua participação em toda a infraestrutura de comunicações. 

A África do Sul não aproveitou a oportunidade para promover suas marcas. Nenhuma delas emergiu como uma marca mundial. A sua principal marca não era comercial e foi uma das mais difundidas em 2013: a marca da liderança, a marca da humanidade: Mandela.

O Brasil parece não ter pretensão de "vender" nenhuma marca global, com os seus patrocinadores limitados ao mercado nacional. 

As principais empresas brasileiras globalizadas atuam no mercado do B2B, ou seja, de venda dos seus produtos a outras empresas, portanto com estratégias de marketing mais direcionadas. São elas a Petrobras, a Vale e a Embraer. No mercado das commodites agrícolas a comercialização é feita por grandes tradings internacionais. 
O segmento maior atuação internacional é a JBF, agora com uma bem sucedida campanha da marca Friboi. Mas ela não ingressou como patrocinadora da FIFA.  Outra, dentro do mesmo ramo seria a BRF, que tem a Sadia como uma marca mundial. A Marfig chegou a ser uma patrocinadora da seleção brasileira, com a marca Seara, mas agora "está quebrada" e em pendências com a CBF.

A mais atuante é a AMBEV que tem atuação internacional, mas fixada na promoção da Buddweiser. A marca Antarctica do seu guaraná é promovida apenas internamente.

O Itau é uma das principais patrocinadoras da Copa, porém tem atuação internacional restrita. O seu patrocínio tem a ver com a concorrência nacional: é uma disputa com o Bradesco.

A Garoto aparece com uma das principais patrocinadoras da Copa 2014, o que caracteriza uma estratégia da Nestlé. A multinacional não é patrocinadora permanente da FIFA, nem aparece diretamente na Copa. Porém busca ampliar a visibilidade da "caixinha amarela de bombons" que se tornou um produto emblemático do chocolate brasileiro, com vendas no continente americano. É mais um caso de marca brasileira, controlada por uma multinacional. 

O desenvolvimento da marca deveria ser um instrumento de estratégia de globalização. O que não parece ser a prioridade das empresas brasileiras.

Dessa forma, o mais provável é que o legado de desenvolvimento de marcas brasileiras globais, de empresas nacionais, seja nulo. 

A maior oportunidade perdida por um Brasil contraditório que oscila entre um desenvolvimento globalizado ou voltado para o seu mercado interno. 


domingo, 29 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - cruzeiros e portos marítimos

A grande ilusão vendida com a perspectiva da Copa foi a dos cruzeiros marítimos. Alguns acreditaram por uma lógica parcial de que com até 4.000 lugares, permitiram resolver o problema da hospitalidade, sem necessidade de construção de novos hotéis. Até porque esses corriam o risco de ficarem ociosos após a Copa.
Outros, mesmo sabendo que isso não ocorreria fizeram coro às prestidigitações para viabilizar a construção ou modernização de terminais portuários de passageiros, nos principais portos brasileiros.

O Governo Federal foi "na onda" e até incluiu na matriz de responsabilidade, obras portuárias. Que, na realidade, nada tem a ver com a Copa, mas decorrente da mistificação perpetrada por espertos o que demonstra como os demais que querem se passar por espertos caem nas esparrelas.

A lógica real do setor e da Copa do Mundo, demonstrava à saciedade a irrealidade da proposição, porém a miopia voluntariosa desviava a visão real para preferir a crença na ilusão, movida pelo desejo de que ocorressem.

Para a Copa das Confederações não aportou nenhum navio durante as competições, mas poder-se-ia alegar que os terminais não estavam prontos, sendo o primeiro a ser concluido foi o do Recife (foto), em agosto de 2013. Todos os demais só deverão ser entregues em meados de maio de 2014, quando a temporada no Atlântico Sul estiver terminada.

Os armadores que promovem a construção dos gigantescos navios de cruzeiros marítimos precisam dar utilidade e rentabilidade aos seus investimentos ocupando os durante o ano todo. Dadas as diferenças de estações entre os hemisférios, eles alocam os navios no atlântico sul durante a temporada de verão, a partir de dezembro, até março, com eventual prolongamento até abril, e o levam para o Norte, no outro período, reservando ainda um intervalo para as manutenções e revisões. Os deslocamos de um hemisfério a outro, praticamente vazios são caros, dai o posicionamento dos navios por temporada e não por viagens isoladas

Portanto, o primeiro dado de realidade é que nos meses de junho e julho, o período de inverno no Hemisfério Sul, os navios de cruzeiro estão alocados nas rotas do norte, seja nas águas do Caribe, como do Mediterrâneo.

O segundo dado é que a maior parte ou quase totalidade da demanda é de turistas nacionais, com um grande aumento nos últimos anos até 2012, em função da melhoria da renda e da "classe média emergente" que tem como um dos principais objeto de desejo um cruzeiro marítimo. Já em 2013 o crescimento foi menor, indicando uma saturação da demanda, que deverá se manter para a temporada 2013/2014 que já começou (dezembro de 2013).

O terceiro é que os cruzeiros, como diz o próprio nome, fazem cruzeiros, com curtas paradas em cada porto ou cidade, para uma visita rápida, seguindo para outro: são sempre poucos dias para muitos lugares, aproveitando as noites para navegar.

Uma parada por maior tempo, incluindo o pernoite estacionado num porto é excepcional, ocorrendo apenas quando coincidem com um evento significativo, como são os carnavais. Até porque o principal movimento ocorre durante a noite. Seriam os casos do Rio de Janeiro, cuja obra do Cais para ampliar a recepção dos navios, foi excluida da Matriz de Responsabilidade e Salvador (foto) cuja obra do Terminal de Passageiros está em fase final de conclusão.

A ideia de que os navios de cruzeiros atendessem à carência de quartos e leitos durante a Copa só existia para os que querem que Papai Noel exista. 

Não obstante a possibilidade de roteiros nordestinos para a primeira fase. Fortaleza (foto) poderia ter a expansão dos cruzeiros do Caribe.

Mas não há programação para tal. Não houve interesse e consequente mobilização para viabilizar tais pacotes.

Apesar do engodo e oportunismo para se aproveitar da realização da Copa no Brasil em 2014 esse vai deixar como legado um conjunto de terminais maritimos para passageiros. Além dos já citados (Fortaleza, Salvador e Recife) estão sendo construidos os de Manaus (esse hidroviário) e o de Natal.

Os mais importantes não terão obras vinculadas à Copa. A do Rio de Janeiro, que envolvia o maior investimento foi retirada da Matriz de Responsabilidades e as obras de realinhamento do cais no Porto de Santos, para ampliar o acostamentos dos navios de cruzeiros não deverão ser entregues a tempo.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - "padrão FIFA"

Os Presidentes do Brasil e da FIFA acreditavam, em 2007, que a escolha do Brasil para a sede da Copa do  Mundo, em 2014 reforçaria a unidade nacional, melhoria a auto-estima do brasileiro, superaria o complexo de "vira-lata", geraria um clima de euforia e entusiasmo favorecendo o crescimento econômico e a redução das desigualdades sociais.
Afinal o Brasil é o país do futebol e só, uma minoria insignificante, de pessimistas e mal humorados, ficaria contra a Copa e os seus gastos. 
A Presidente Dilma, para justificar os gastos e a subserviência às exigências da FIFA, chegou a distorcer a frase célebre de Nelson Rodrigues "o escrete é a pátria em chuteiras", para afirmar que o Brasil é a "pátria em chuteiras".

Não foi o que ocorreu nas manifestações de rua, em junho de 2013.
Os gastos com a Copa foram um dos principais alvos de contestação dos manifestantes que usaram o mote "padrão FIFA" para exigir o mesmo tratamento dado pelo Governo às ações e obras preparatórias para a Copa, para os serviços públicos de educação e saúde.
Poderiam as novas gerações que terão que pagar as altas contas assumidas com os estádios, as terem evitadas? As manifestações chegaram tarde quando os estádios já estavam em estágio avançado de construção.

O Governo não consultou a população, nem mesmo os legislativos. Assumiu compromissos em nome do povo brasileiro e só cinco anos depois ele acordou. Não foi por falta de informação, mas de buscá-la e utilizá-la. No Portal da Copa, depois alterada para Portal 2014 (www.portal2014.org.br ), por exigência da FIFA, desde 2008 mostrava os dados sobre o volume de obras - já elevados e depois ainda mais ampliados - e a avaliação da inviabilidade econômica da maioria dos estádios.

Mas será que em 2008 os jovens de Manaus e Cuiabá iriam às ruas? Iriam dizer ao Governo: não precisamos da Copa aqui. Não queremos a Copa aqui. Juntamente com os jovens de Campo Grande e de Belém. Será que os jovens brasilienses iriam às ruas para dizer que não precisamos reformar o Mané Garrincha, porque não tem futebol bom na Capital Federal e dois outros estádios tinham sido reformados há pouco tempo?. Será que os black blocs teriam espaço e apoio para se opor à reforma do Maracanã a valores exorbitantes. em 2009 ou 2010?

Não foram às ruas em 2008. Nem em 2009, para indicar que o Brasil não estava a favor de uma custosa Copa, no país.
Mas foram em 2013 e voltarão às ruas, melhor informados e inconformados. A cortina de fumaça que o Governo Federal tem lançada, para tentar conter a revolta popular, persistindo na inverdade de que não há recursos públicos na construção dos estádios "padrão FIFA" não se sustenta, pela realidade objetiva e comprovada. É verdade que não existem recursos do Orçamento Fiscal da União, de origem tributária e sem retorno para aplicação nos estádios. Houve, no entanto, recursos desse orçamento para reforçar o caixa do BNDES para o financiamento da construção dos estádios.

A maioria dos estádios teve os seus recursos assumidos pelos Governos Estaduais. Dos doze, apenas três são de clubes e inteiramente privados, embora com subsídios públicos. Dos nove demais, Manaus, Cuiabá, Brasília e Rio de Janeiro foram feitos com recursos orçamentários dos respectivos Governos Estaduais. 5 foram construídos ou reformados com recursos privados (Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e Belo Horizonte). Mas esses foram construídos na modalidade de concessão administrativa, dentro das parcerias público-privadas, o que quer dizer que ao longo do período de concessão o Governo Estadual irá arcar com uma mesada para o parceiro privado. É o "mensalão" da Copa. No caso do Rio de Janeiro a situação é inversa: é o parceiro privado que deverá aportar uma mensalidade para o Governo Federal, mas insuficiente para amortizar o investimento feito, e talvez insuficiente mesmo para os pagamentos da dívida assumida junto ao BNDES. 

Há recursos públicos e não poucos investidos nos estádios e a vã tentativa das autoridades em não reconhecer e até mesmo contestar essa realidade só aumenta a indignação e o inconformismo dos jovens. Persiste a sensação de que estão sendo enganados: e estão.


O Governo persiste na tese, a fim de evitar a comparação de que esses gastos públicos poderiam ser destinados à melhoria da educação e da saúde. Mas não conseguirão, porque o desempenho da educação brasileira continua ruim nas classificações internacionais e as pessoas percebem, no dia a dia, as deficiências da educação pública.

A situação da saúde pública é pior ainda. O atendimento do SUS é demorado e precário. Não adianta do Governo dizer à população o quanto está gastando e que está implantando o Programa Mais Médicos. Enquanto os estádios estão sendo concluídos e inaugurados  os resultados na saúde pública ainda não apareceram de forma significativa.

Em 2014 serão inevitáveis as manifestações populares criticando a preparação para a Copa, e exigindo o padrão FIFA para a educação e saúde. 

Estudos recentes indicam que os estádios brasileiros para a Copa estão entre os mais caros do mundo e as despesas totais, só com os estádios, já estimadas em torno de 9 bilhões de reais são as maiores entre todas as Copas.

Tal volume de recursos, embora nem tudo seja com recursos públicos, para um evento esportivo particular, gera insatisfação e mesmo indignação, que eclodirá em novas manifestações de rua, não obstante toda campanha, liderada pela Rede Globo, juntamente com os patrocinadores da FIFA e da Copa, para gerar um ambiente favorável e de entusiasmo popular com a realização da Copa. 

"Padrão FIFA" será um dos principais legados da Copa 2014? 
Voltarão os manifestantes às ruas após a realização do grande evento, reclamando pelo "padrão FIFA", ou este perderá sentido, em 2015 e anos subsequentes?

Os indícios são de permanência, tanto para justificar aumentos de preços dos ingressos nos estádios ou de outros produtos relacionados com o futebol. "Por que está mais caro? porque é padrão FIFA, oras".
A Copa promoverá uma inflação futebolística que será ainda maior se o Brasil conquistar a taça. Terá influência reduzida nos índices gerais de preços, mas gerará uma sensação de aumento da carestia.

Servirá também para cobrança ou exigência de melhoria da qualidade nos produtos ou serviços. "Quero padrão FIFA". Ninguém saberá precisar qual é esse padrão, apenas que é superior ao usual.

E a qualquer deficiência nos serviços ou instalações dos estádios o bordão será "não tem padrão FIFA". Substituirá o atual "imagine na Copa...".




sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - arenas multiuso

O Brasil tem poucos locais para a realização de mega-shows internacionais, que reunem mais de 40 mil espectadores por apresentação.
Essa limitação de locais estaria restringindo a maior inserção do Brasil nos circuitos internacionais das grandes celebridades mundiais. Segundo alguns críticos, o Brasil só estaria recebendo artistas já em decadência, longe do seu auge, mas ainda com capacidade de reunir público saudoso com os seus antigos sucessos. Nenhum deles estaria escolhendo o Brasil para o lançamento de seus novos discos. 
Com os novos estádios, como o novo Fonte Nova (foto) as cidades-sede teriam condições de receber os grandes shows, tornando os estádio em arenas multiuso, com a captação de receitas adicionais para a amortização dos grandes recursos investidos na sua construção ou reforma.
Isso seria verdade para algumas das cidades que completaram seus estádios para a Copa das Confederações e receberam mega-shows, lotando-os.
O Castelão, em Fortaleza recebeu a  última das três apresentação no Brasil, em 2013, de Paul McCartney e depois o início da turnê de Beyoncé. 
A Arena Pernambuco foi palco do denominado "Maior Show do Mundo" (foto), para a gravação do novo disco de Cláudia Leitte, mas a principal atração acabou sendo a funkeira Anitta, não tendo conseguido lotar a casa.
O Estádio Nacional de Brasília recebeu os shows de Beyoncé, com fans acampando diante do estádio (foto) e Justin Bieber.
O Mineirão foi palco da apresentação de Elton John (foto)  e de Paul McCartney

O Maracanã não recebeu nenhum show, com todos os maiores no Rio de Janeiro sendo realizados na Praça da Apoteose.

Para 2014 só estão confirmados duas megas turnês ocupando os estádios: Metálica, com uma única apresentação no Morumbi, em março e One Direction, a mais nova sensação para o público jovem, com dois shows pouco antes da abertura da Copa. Programados, originalmente, para inaugurar a Arena Palestra, já foram transferidas para o Morumbi.

O Brasil já está inserido no circuito mundial dos shows musicais, onde predominam as bandas de rock e cantores de prestígio, mas a maioria ocorre em ambientes fechados, com pequena lotação. Os de maior lotação preferem locais menores com lotação até 30.000 lugares e, excepcionalmente, alcançando 40.000 que seria a lotação do sambódromo em São Paulo, ou da área de estacionamento contígua. A média de público dos grandes shows ficaria em torno de 25.000 espectadores, não sendo interessantes para os novos estádios, cuja capacidade nas arquibancadas é de, no mínimo, 40.000. No caso dos shows, parte daquelas é inutilizada para a colocação do palco, mas teria a compensação do uso do gramado.

A disponibilidade de uma nova e moderna arena multiuso é importante para atrair as turnês, mas não suficiente. Dados os elevados valores dos ingressos, que alcançam valores acima de R$ 600,00, sendo os mais baratos, da ordem de R$ 120,00 é preciso que haja público interessado com capacidade de renda. 

Não é a falta de arenas multiuso de grande porte que limita as turnês internacionais no Brasil, mas a insuficiência de demanda, dados os preços.

Nem todas as cidades tem um público disposto a pagar os elevados preços. São Paulo teria uma demanda para megashows, acrescidos dos fãs de outras cidades. Brasília que conta com a maior renda per-capita também tem. Já o Rio de Janeiro, aparentemente, não dispõe. Tem um grande público para preços populares, mas pouco para mega-shows com preços elevados.

Os que as novas arenas permitirão é a descentralização, com a realização de eventos em várias cidades e não concentradas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Os shows de Amy Winehouse, no início de 2012 já foram programadas em locais menores, apesar das grandes expectativas. Foram 5 shows, começando por Florianópolis,
num festival, no Rio de Janeiro na Arena HSBC, para 14 mil espectadores, dois no Recife no Centro de Convenções e o final da turnê em São Paulo no Anhembi, onde - segundo os patrocinadores - estiveram 30.000 pessoas.
Os shows de Madonna e Lady Gaga foram fracasso de público. Não se conseguiu vendeu todos os ingressos colocados, mesmo com grandes promoções e descontos. No caso de Madonna supõe-se que houve um processo de saturação, pois ela já havia se apresentado no Brasil, dois anos atrás.

Outra vítima do processo de saturação foi Justin Bieber. Em 2011, quando era a maior atração do público jovem (predominantemente feminino) teve marcados shows extras no Engenhão, no Rio de Janeiro,  para 40 mil espectadores e no Morumbi, em São Paulo para 60 mil espectadores. Mas no encerramento, em Porto Alegre, no Beira Rio, só vendeu metade dos 50.000 ingressos.
No seu retorno em 2013, ficou com apenas uma apresentação no Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose. Já não foi o sucesso de público, como em 2011.
Apenas Paul McCartney escapa da saturação, conquistando casas cheias nas suas turnês mais recentes. Mas evitou São Paulo e Rio de Janeiro, realizando-os em Belo Horizonte, Goiania e Fortaleza.

O setor é dominado por poucas empresas nacionais, como a Time for Fun e XYZ que contratam as apresentações, o local e comercializam os ingressos. Eike Batista tentou entrar no mercado com a IMX, mas não teve fôlego para levar a frente o empreendimento.
Aparentemente, nenhuma delas tem exclusividade com os locais dos shows, tampouco as administram. Algumas teriam contrato de longo prazo com alguns artistas ou bandas, operando como agentes deles para as apresentações no Brasil. Um dos poucos casos era o Cirque du Soleil, com a Time for Fun. A IMX tirou o contrato dela, a partir de 2014, mas não terá condições de cumprir.

A tendência, com os novos estádios, é da parceria ou contratação de uma operadora internacional, que faria a gestão da arena multi-uso, fora a sua utilização para os jogos de futebol, promovendo a captação dos shows e a comercialização dos ingressos, cuidando ainda de toda infraestrutura móvel e da logística das apresentações.

Todos os concessionários dos estádios, dentro das PPPs, estão estabelecendo essas parcerias, para o uso desses como arenas multi-uso.
"Na Bahia, a OAS Arenas, que tem como sócia a holandesa Amsterdam ArenA, estima faturar R$ 45 milhões, em Pernambuco R$ 40 milhões e, em Porto Alegre, R$ 50 milhões neste ano" (Estádios de futebol passam por adaptações - Valor - 18/09/2013 - B6) 
A AEG -  Anschutz Entertainment Group, empresa norteamericana, uma das principais gestoras mundiais de arenas multiuso já fechou contratos com a Arena da Baixada, em Curitiba, Arena Pernambuco e o Allianz Parque, a arena do Palmeiras, em São Paulo.
Nesta, o seu primeiro grande evento, com o grupo jovem One Direction já teve que ser transferido para o Morumbi, face aos atrasos da obras, decorrente de impasses entre a empreendedora (W Torre) e a nova direção do clube que quer rever as condições originais do contrato.

O legado da Copa , quanto às arenas multiuso, será a maior participação de operadoras estrangeiras para gerí-las e gerenciar todo processo dos eventos, concorrendo com as nacionais, que ainda dominam o mercado.

Considerando a capacidade real das operadoras brasileiras em captar eventos internacionais, a dúvida é o quanto essas empresas estrangeiras conseguirão aumentar o volume de megaeventos para ocorrerem naquelas novas arenas multiuso.

Há muita expectativa que se mistura com desejos e ilusões, que poderão não se efetivar em função das tendências verificadas nestes dois últimos anos no setor: declinante no conjunto dos megashows, com descentralização regional e crescimento no volume total, dos shows em casas fechadas e arenas menores (até 30.000 espectadores), com concentração regional no sudeste.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - as vidraças

As vidraças são os problemas ou situações mostradas pela mídia internacional e que podem afetar o fluxo de turistas estrangeiros ao Brasil.

Desde que o Brasil foi homologado como sede da Copa 2014 algumas vidraças regionais ou locais, ficaram evidentes, com a cobertura pela midia internacional:
a violência urbana no Rio de Janeiro, o caótico trânsito de São Paulo e a prostituição infantil, mais visíveis em Fortaleza e Manaus, mas relatada também em São Paulo, segundo as notícias abaixo:

Jornal inglês destaca exploração sexual em Fortaleza e cita "explosão" do problema na Copa

Matéria do jornal britânico The Guardianpublicada na última segunda-feira (9), aborda a exploração sexual de menores em Fortaleza e as preocupações com o crescimento da desse mal durante a Copa do Mundo. O texto inicia descrevendo uma adolescente, na avenida Juscelino Kubitschek, no bairro Castelão. "Um carro para. Ela entra. Essa é uma cena comum nas proximidades do estádio (Castelão) em Fortaleza, que é considerada a capital brasileira da prostituição infantil e um ímã para o turismo sexual", detalha a publicação.

Segundo o Guardian, travestis também são vistos comumente nas esquinas da cidade, mas é pelas menores que a procura é grande. "Logo que elas chegam à avenida, são pegas", afirma uma promotora ouvida na reportagem.
O texto mostra que ainda há aproximadamente meio milhão de crianças e adolescentes submetidos a essa situação no País, contingente cinco vezes maior em relação às 100 mil vítimas de exploração contabilizadas em 2001, diz o texto.
"Com a proximidade da Copa do Mundo, há o temor de uma explosão na prostituição infantil com a migração de profissionais do sexo do interior para as grandes cidades. Mais jovens podem ser recrutados para dar conta da demanda dos estrangeiros fãs de futebol", afirma o jornal.
Jornal inglês relata prostituição infantil nos arredores do Itaquerão




Moacyr Lopes Junior/Folhapress



O jornal inglês "Mirror" publicou uma extensa reportagem escrita por Matt Roper relatando casos de prostituição infantil nos arredores do Itaquerão, palco da abertura da Copa do Mundo de 2014 e de uma partida da Inglaterra na fase de grupos. Segundo a publicação, garotas de 11 a 14 anos cobram entre R$ 10 e R$ 15 para manter relações sexuais com trabalhadores da obra do estádio.
A publicação ressalta a disparidade da obra que custará mais de R$ 800 milhões localizada em uma área pobre de São Paulo, repleta de favelas e que favorecem, segundo o "Mirror", a prática ilegal a preços irrisórios.
Mais recentemente os conflitos nos estádios se tornaram a maior vidraça, envolvendo a imagem nacional. Outra vidraça emergente é a elevação dos preços dos hotéis, superando os orçamentos elaborados pelos interessados e criando a sensação de que o Brasil e, em particular, o Rio de Janeiro é uma cidade cara.

A violência urbana no Rio de Janeiro vem sendo combatida através das UPPs, com eficácia relativa, mas tem feito de favelas uma atração turística. Durante a Jornada Mundial da Juventude, com a visita do Papa Francisco, muitas casas ofereceram hospedagem. Essa hospedagem está sendo considerada alternativa para a Copa 2014.
Poderá ser uma medida eventual ou um legado da Copa.

Ainda no Rio de Janeiro os aumentos no valor das diárias dos hotéis e da alimentação nos restaurantes de padrão ou da moda gerou a percepção que a cidade é cara, assustando os potenciais turistas internacionais.

O problema maior é com os turistas nacionais, em função da comparação dos preços da hospitalidade na Cidade Maravilhosa  com as praticadas nas suas cidades e em outras. É muito mais barato passar férias no Nordeste, usufruindo de praia e sol do que no Rio de Janeiro.

A visão dos empresários do setor de hospitalidade nas cidades-sede é de aproveitar a oportunidade, ou de oportunismo, com uma visão de curto prazo.

Estão contando com um público interessado em acompanhar os jogos da Copa que não teria alternativas, o que não corresponde à verdade. 

O maior público de turistas será de torcedores brasileiros, acompanhando a seleção canarinha. Mas essa só jogará no Rio de Janeiro, se chegar à final. Os hoteleiros e os restauranteurs estão muito esperançosos, como todos os demais brasileiros, mas eles adicionalmente por razões econômicas.

O principal contingente de turistas estrangeiros será de argentinos que terão a opção do "bate volta" pois só jogarão no sul e sudeste, sem pernoitar na cidade. A economia na hospedagem compensará o custo dos voos.

O risco é que a sensação de um país caro, restrinja o fluxo de turistas pós-Copa. 

O grande legado esperado com a realização da Copa seria o aumento do fluxo de turistas internacionais, tornando as suas cidades importantes polos de atração turística, repetindo a façanha de Barcelona com os Jogos Olímipicos de 1992. 

O legado da Copa 2014 poderá ser o oposto. As vidraças poderão superar as vitrines.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Estádios da Copa: por que tão caros?

Estudo elaborado por uma consultoria internacional, divulgado pelo jornal "O Estado de São Paulo" diz que os estádios construídos para a Copa 2014 estão entre os mais caros do mundo.
Por que tão caros?
A resposta oficial é a de sempre e esperada: decorre das exigências da FIFA, sejam as constantes do seu manual, como as específicas para a Copa 2014. 
A cada Copa a FIFA aumenta as exigências, para correções de erros ocorridos, assim como para atender às novas circunstâncias. Ou seja, o decantado  "padrão FIFA".
O objetivo da Copa Verde, prevista - inicialmente - para a África do Sul, foi adiada para o Brasil, requerendo de todos os novos estádios a construção verde (green building) devidamente certificada.
Todos os estádios prevem a captação das águas das chuvas, com o seu armazenamento e utilização para manter a grama, ventilação natural, com aberturas estratégicas e, em alguns deles, instalações para a geração de energia solar. Isso teria provocado um encarecimento da obra.
É um motivo, porém os valores ficara muito acima dos acréscimos decorrentes da construção verde.
Uma das supostas razões para o encarecimento seria o açodamento da execução da obra. Embora o país tivesse tido tempo suficiente para planejar, projetar e executar as obras, sem correria, atrasou o início das obras e para cumprir os prazos, recorre a horas extras, dobras de turnos da mão-de-obra, com aumento dos custos e riscos de acidentes.
Paira, no entanto, a persistente suspeita de superfaturamentos. O TCU fez uma fiscalização mais rígida, levantou indícios, exigiu correções, porém nada foi comprovado. Mas também não eliminou as suspeitas.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Os legados da Copa - Estádios

Com a realização das etapas finais da Copa do Mundo de Futebol, concentradas num país, esse prepara um conjunto de ações e investimentos, com a promessa de grandes benefícios futuros, caracterizados como legados.
Os primeiros são de natureza esportiva: para países com pouca tradição futebolística esse objetivo seria de promover essa modalidade esportiva; para os com tradição, melhorar as condições de infraestrutura para os jogos.
Tomando as mais recentes edições, temos o Japão e Coreia do Sul (2002) e África do Sul (2010), como países sem tradição,  França e Alemanha com grande tradição.

A França conquistou a Copa, em casa, em cima do Brasil.


Na Alemanha, o resultado como melhoria da infraestrutura pode ser considerado altamente positivo. Já no resultado futebolístico não repetiu a França de 1998, ficando em terceiro lugar: os italianos faturaram a Copa, Mas a Alemanha consolidou-se como uma potência futebolística européia, sendo uma forte candidata ao título de 2014.

Com a Copa de 2002 o Japão emergiu como a principal potência asiática do futebol, estando presente em todas as Copas posteriores, assim como da Copa das Confederações. Foi a primeira seleção a ser classificada para 2014, além do Brasil, dentro do grupo que envolve a Ásia e Oceania.
A Coreia do Sul, vem em seguida, disputando posições com o emergente futebol chinês e as outras seleções do grupo.
Mas essa emergência não foi suficiente para a ocupação rentável dos estádios. O principal resultado para a Coreia do Sul foi a universalização das suas marcas, aproveitando a visibilidade promovida pelos jogos da Copa.

Já na África do Sul, o resultado foi duplamente negativo: o futebol sul-africano não conseguiu decolar com uma força africana, ainda dominada pela Nigéria, Camarões e outros. Ela não conseguiu se classificar para a Copa no Brasil. No futebol não conseguiu a façanha do Rugby, ainda o principal esporte sulafricano.

Com a infraestrutura o resultado foi ainda pior. O legado foi uma "manada de elefantes brancos", o que pode também ocorrer no Brasil, embora com outro padrão. Nem o rugby salva.

Do ponto de vista futebolístico, o Brasil não precisa sediar a Copa, para se firmar no cenário internacional. Depende mais dos dirigentes e do treinador para montar e orientar uma equipe vencedora, porque bons jogadores não faltam, se desenvolvendo em diversos países.

Pode-se avaliar que com a realização da Copa no Brasil, aumentará o interesse público pelo futebol, pelos jogos, com aumento dos públicos nos estádios.
Na maioria dos casos não seria necessário construir novos estádios ou promover profundas reformas, já que esses apresentam grande ociosidade durante os jogos nacionais.

No entanto, com os novos estádios construídos ou reformados para a Copa haveria maior conforto e segurança, atraindo mais famílias para assistir presencialmente os jogos. A melhoria do público após a Copa das Confederações atestaria isso, mas o presença dos briguentos e vândalos, mesmo nos novos estádios indicaria que a infraestrutura não é suficiente para a garantir a tranquilidade dos espectadores.

Dos doze estádios, apenas dois (Mineirão e Itaquerão) tem uma boa perspectiva de rentabilidade para o empreendedor, em função do grande público fiel dos times que jogarão nesses, mesmo quando em baixa.
Seis tem perspectiva negativa, dos quais dois deles certos, independentemente da gestão (Manaus e Cuiabá) e os quatro do nordeste, dependendo dos acordos com os clubes.
Maracanã e o Mané Garrincha de Brasília, poderão ter público, porém o seu alto custo de implantação aliada às concessões aos clubes e terceiros para abrigar os jogos, deixarão pouca margem para o empreendedor.
Os dois estádios privados do sul, dependerão do desempenho futebolístico dos respectivos times.

Para a construção ou reforma dos estádios, os empreendedores públicos como privados tomaram empréstimos, principalmente da linha especial colocada à disposição pelo Governo Federal, através do BNDES. Apenas Brasília não recorreu a esses empréstimos, porque junto com o dinheiro do BNDES vinha a fiscalização do TCU - Tribunal de Contas da União. Fiscalização essa que decorria da utilização de recursos públicos, não importando se com ou sem retorno. 

Segundo as últimas estimativas, o total de gastos com os estádios alcançará R$ 8 bilhões. 

Em todos os casos o principal legado dos estádios será de dívidas.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Legado da Mobilidade Urbana

O principal legado alardeado pelas autoridades com a realização da Copa 2014 seria das obras para melhoria da mobilidade urbana nas cidades sede.
Para efeito da Copa as cidades-sede deveriam melhorar a sua infra-estrutura urbana para facilitar o acesso e o deslocamento entre os principais pontos dos turistas que acorreriam aos jogos: aeroporto (ou rodoviária) - hotel - estádio. Adicionalmente às principais atrações turísticas da cidade.
Para isso o Governo Federal acenou com o suprimento de recursos adicionais para os pauperizados Governos Estaduais e Municipais, por conta a excessiva concentração de recursos tributários nas mãos da União.
Esses aproveitaram a oportunidade para elaborar um pacote de obras represado durante anos, por falta de recursos próprios. A Copa seria apenas um pretexto para viabilizar tais pacotes. Algumas das obras eram importantes para a Copa, outras nem tanto.
O Governo Federal aceitou o jogo, com o objetivo de atender mais às populações locais do que os turistas da Copa. Dessa forma, a perspectiva do legado estava presente desde o início. A Copa seria apenas um pretexto para as cidades serem atendidas prioritáriamente, com recursos federais.

Nas doze cidades escolhidas pelo Governo Brasileiro e homologadas pela FIFA, em nenhuma delas havia problema crítico de acessibilidade ao aeroporto, assim como aos polos hoteleiros. 


Já em relação ao acesso ao estádio, os problemas maiores estavam em Fortaleza e Belo Horizonte. Esta está conseguindo ultimar o corredor de BRT juntamente com a ampliação das vias para os demais veículos na Av. Pres. Antonio Carlos e D. Pedro I, porém com um gargalo no final delas, ainda não resolvido.

Fortaleza teve problemas, com desapropriações e com a construtora, teve que interromper as obras durante a Copa das Confederações, mas deverá ter concluidas as obras.

Todos os estádios tem necessidade de melhoria do sistema viário no entorno, para facilitar o acesso e reduzir os impactos em todo o sistema, nos dias de jogo. Tais obras foram consideradas prioritárias e deverão estar prontas para a Copa. O mais crítico é São Paulo, em função da demora no início das obras, decorrente da mudança do local do estádio para receber os jogos. O planejamento teve que ser inteiramente revisto, e não havia projetos.
Em quase todas elas havia e continua havendo um grave problema de mobilidade, pelos contínuos congestionamentos.

Ou seja, a via existe mas insuficiente para atender a toda demanda de veículos em momentos de pico.
Este período de recesso natalino e troca de ano, bem caracteriza a diferença entre as condições: há acessibilidade e mobilidade, o que não ocorre nos demais períodos do ano.

Não há consenso em relação às medidas eficazes para melhorar a mobilidade. Todas as que vem sendo adotadas se baseiam em suposições, quando não em ilusões ou opções ideológicas.

Em nenhuma dos aeroportos internacionais há um sistema de transporte de alta qualidade, com os turistas dependendo exclusivamente das vias rodoviárias e uso do taxi, de ônibus especiais ou comuns e ainda das vans dos serviços turísticos.
Em quase todas as cidades-sede, o turista enfrenta congestionamentos e demoras para chegar ao hotel. São poucas as cidades que contam com uma boa rede de hotéis próxima ao aeroporto, facilitando o seu deslocamento. 
Recife é um caso diferenciado com a sua principal rede hoteleira, em Boa Viagem, próxima ao aeroporto. Salvador tem resorts próximo ao aeroporto, mas o seu principal núcleo hoteleiro fica na orla praiana na altura de Pituba e Rio Vermelho, com a mobilidade constantemente comprometida.
Porto Alegre está desenvolvendo um polo hoteleiro junto ao aeroporto, ainda que focado no turismo de negócio.
Em Manaus, o seu principal hotel fica mais próximo do aeroporto do que o centro principal, mas depois o deslocamento para esse, onde está o estádio é difícil.
Fortaleza e Natal tem aeroportos distantes do polo hoteleiro, com acessos por rodovia federal, tornada uma avenida urbana.
Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba tem aeroportos internacionais distantes do centro e dos polos hoteleiros, com acessos já melhorados, mas sujeitos a grandes congestionamentos. Nesses três últimos casos, o aeroporto já fica em outro município da região metropolitana, ligados à capital por uma rodovia estadual ou federal. Em nenhum dos casos foram previstas obras federais.

As principais obras rodoviárias federais, relacionadas com a Copa foram as melhorias na BR 101 no Nordeste, que ligam cidades-sede da Copa. O Governo Federal ampliou e melhorou a BR 408 (foto) que é o principal acesso à Arena Pernambuco.

As necessidades de obras nas vias de acesso eram de ampliação das vias e de obras de arte, para eliminar cruzamentos em nível e melhorar os fluxos.


As cidades que enfatizaram esse tipo de intervenção, como Curitiba, Porto Alegre e Natal, não conseguiram dar um andamento adequado e as viram retiradas da matriz de responsabilidades. 

Buscou-se ainda a implantação de corredores de transporte coletivo de média capacidade, sem uma diretriz consistente. A única adotada, mais por restrição de recursos do que por razões técnicas, foi a exclusão das obras metroviárias.
O Governo Federal aceitou o que os Estados ou Municípios  propuseram, em função de interesses regionais ou econômicos, resultando em monotrilhos, VLTs, BRTs ou VLPs e corredores comuns de ônibus, cada qual apresentado e justificado com belas fotos e maquetes, mas sem uma aferição dos efetivos impactos sobre a mobilidade urbana da cidade.

Cuiabá é um caso diferenciado, com grande dificuldade de acesso ao aeroporto, no Município de Várzea Grande, vizinho à capital, passando por ruas estreitas e entorno com ocupação densa. Já no Municipio de Cuiabá, em direção ao centro, há uma grande avenida, onde também estão os principais hotéis.

Para a melhoria da mobilidade a concepção adotada foi a de implantação de um sistema de transporte coletivo diferenciado, junto à ampliação e melhoria da via.
O projeto original previa o BRT, substituido pelo VLT. (foto)
Só ficará pronto parcialmente e não será essencial para o acesso ao estádio. Um viaduto recém concluido teve os seus acessos alagados (foto)

A vinculação com a Copa garantiria que as obras ficassem prontas e entregues para uso da população até o primeiro semestre de 2014. Para acelerar o processo até regimes especiais de licitação e contratação foram estabelecidos, como o Regime Diferenciado de Contratações - RDC.


Com a desvinculação com a Copa, uma vez que não ficarão prontas antes, quando serão concluídas? Para evitar a postergação indefinida elas foram transferidas para outro programa federal dedicada à mobilidade urbana.


Durante o período da realização da Copa, as obras serão suspensas, para evitar maiores transtornos. Isso já ocorreu durante a realização da Copa das Confederações, sendo Fortaleza o caso mais evidente.

O legado mais imediato será um conjunto de obras inconclusas, mas que deverão ser concluidas até 2016.
Concluidas as obras ou colocados em operação os novos sistemas de transporte coletivo quais serão os impactos efetivos sobre a mobilidade urbana?

(trataremos do assunto em outro artigo)

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os legados da Copa 2014

A realização da Copa do Mundo de Futebol, em 2014, no Brasil, deixará legados ao país, tanto positivos como negativos.
Ao longo desta semana de recesso, dedicar-nos-emos a algumas reflexões sobre esses possíveis legados, nas diversas áreas afetadas pela realização desse mega evento internacional.
Um primeiro conjunto será sobre o legado dos estádios construídos ou reformados para a Copa, com algumas derivações: o perfil do espectadores dos jogos de futebol, pós Copa; a contenção da violência nos estádios; a utilização dos estádios para shows musicais e outros eventos, tornando-os arenas multiuso e ainda as dividas 
contraídas para a construção e as perspectivas de retorno do investimento.
Ainda dentro do âmbito esportivo, discutiremos as eventuais mudanças sobre a formação e desenvolvimento da competência futebolística no país, os negócios do futebol e a gestão, tanto do setor como dos clubes.
Um terceiro conjunto será sobre a infraestrutura  logística, objeto de grandes investimentos para receber os participantes e os turistas, desdobrado em três subconjuntos: aeroportos, mobilidade urbana e portos.
O quarto conjunto será sobre o turismo,  envolvendo a hospedagem, a gastronomia e a logística para os turistas, avaliando as perspectivas de evolução do turismo internacional no Brasil. 
Finalmente serão analisadas os legados sobre as principais vitrines e vidraças do Brasil, na perspectiva dos turistas internacionais, envolvendo os aspectos da segurança urbana, prostituição infantil e turismo sexual, congestionamentos no trânsito, limpeza urbana e ainda enchentes e alagamentos.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Um distrito de serviços de TI

Os "calls centers" que incomodam a vida de  quem tem telefone, ou  seja, todo mundo, são os principais empregadores de mão-de-obra de média qualificação e a porta de entrada de grande parte dos jovens no mercado de trabalho.
Por essa razão é o alvo principal das políticas públicas de promoção de empregos localizados. 
Na cidade de São Paulo, benefícios fiscais não foram suficientes para atrair a instalação de call centers na Zona Leste. Com um programa implantado desde 2004 (??) só conseguiu atrair duas pequenas empresas e ganhou notoriedade com os benefícios concedidos para a construção do Itaquerão. Esse, no entanto, não foi suficiente para obter novas adesões, ao programa. Nenhuma outra empresa de TI se candidatou.

Agora com a participação de grupo imobiliário de peso, a Prefeitura pretende desenvolver um projeto que poderia ser caracterizado como um Distrito de Serviços de TI, ou mais especificamente de Call Centers.

Envolveria a edificação de conjunto de prédios comerciais que seriam alugados para ocupação por call centers.

Para ser mais atrativo, esses prédios contariam com uma infraestrutura tecnológica para atender às necessidades dessas unidades, onde a boa comunicação é essencial. Os ocupantes não precisariam fazer grandes investimentos em instalações fixas, ficando limitada às adaptações e ficariam com os investimentos em equipamentos móveis que poderiam se retiradas facilmente, em caso de mudança de local.
Para as empresas de call center, sejam as grandes, como as médias, essa disponibilidade de espaço com infraestrutura, para ocupação em curto prazo, mediante locação, poderia ser uma condição atrativa para se instalarem no Distrito, apesar de fatores negativos, como a grande distância da residências dos seus executivos e a baixa disponibilidade de serviços e facilidades para esses.

Tais fatores negativos seriam os principais responsáveis pela inocorrência da instalação de call centers na Zona Leste, apesar dos incentivos.

Como esses não foram suficientes, seriam necessários elementos adicionais, conjugados ou sequenciais. 

O primeiro deles é a instalação do Itaquerão, em função do seu valor simbólico. Previsto para abrigar o jogo de abertura da Copa 2014, além de ser o estádio do "timão" tem grande visibilidade na mídia e transformou Itaquera num ponto conhecido da cidade, ainda com a visão de que "é muito longe".

Na história de São Paulo deve-se lembrar que no início do século passado, a cidade ia até os meados da subida para a cumieira do morro onde veio a ser instalada a Av. Paulista e que a vertente do outro lado era uma periferia ainda com mata virgem em torno do córrego. Foi nessa área que a City promoveu um grande loteamento residencial de alto padrão, colocando um equipamento esportivo, como chamariz. O futebol era ainda um esporte de elite, mas já em processo de popularização. O Estádio do Pacaembu foi construido numa área vazia.
Na metade desse mesmo século, o São Paulo FC implantou um estádio, numa área inteiramente descampada, como centro e chamariz de grandes loteamentos, atualmente inteiramente tomados, formando o bairro do Morumbi.

O Itaquerão não está numa área descampada, mas ainda há muitas glebas no entorno, esperando a ocupação urbana. 

O Governo do Estado está implantando na área contígua um polo institucional, com fórum, escola técnica e outras instalações de maior importância econômica e social que o estádio, mas com capacidade incomparavelmente menor de gerar visibilidade na sociedade do que o estádio.  Esse polo, apesar da sua escala é percebido como apenas mais um empreendimento público, com baixa capacidade de germinação imobiliária. É um empreendimento para atendimento local, para atendimento da população da região: base de um subcentro urbano. Apesar da proximidade com as estações metroviária e ferroviária metropolitana não teria capacidade de reverter o fluxo dos usuários dessa linhas, predominantemente na direção periferia-centro, nas viagens de ida.

Com o acréscimo do estádio, o polo receberá diversas melhorias viárias, melhorando o acesso daqueles que querem chegar a esse, por automóvel ou ônibus.

Dentro desse ambiente o principal incentivo que interessa ao empreendedor imobiliário é aumentar o potencial construtivo, mesmo que tenha que pagar por ele, mediante a outorga onerosa.

Apesar de ser uma área significativa (200.000 m2), porém relativamente pequena diante dos bairros planejados que estão sendo desenvolvidos em outras áreas, o empreendedor interessado pode erguer alguns edifícios comerciais para abrigar os call centers e empresas fornecedoras da cadeia produtiva e ainda edifícios residenciais para a média renda, com um ou mais diferenciados para a alta renda e ainda edifícios para hotéis.  Não será necessária a construção nessa área de conjuntos habitacionais populares, dada a disponibilidade desses no entorno.

Não seria necessário implantar um shopping center, dada a existência do Shopping Itaquera que poderá ser ampliada e graduada, para atender também consumidores de maior renda, mas a ocupação imobiliária deverá deixar os espaços juntos às calçadas para os bares, restaurantes, agências bancárias, lojas e outros serviços para os trabalhadores da área, com suficiente diversidade para atender a todos os niveis.

Essa integração será essencial para a viabilização do Distrito, embora não precise ser feito tudo de imediato. O próprio mercado se encarregará de ir ocupando os espaços vazios. Havendo demanda, logo surge a oferta.

Pode dar certo, desde que seja concebido com um projeto municipal ou até metropolitano e não como um projeto local. 

Acabará ocupando a mão-de-obra local, mas a sua implantação e início de ocupação dependerá da mão-de-obra moradora em outras regiões que requererá facilidade de acesso e mobilidade.

Apesar do grande potencial para a instalação de call centers, o programa pode ter perdido o momento, em função da tendência de descentralização regional com as grandes empresas do setor abrindo unidades no nordeste e fechando na região metropolitana de São Paulo. 

Um bom ou mau projeto? (4) - Reindustrialização

Dentro da perspectiva de que o Brasil para se tornar um país desenvolvido precisava ter uma indústria própria. Até os anos 80 a indústria fo...