quinta-feira, 23 de março de 2017

Corte na previdência pública ou aumento de impostos para todos

Sem ainda digerir a carne fraca o Brasil enfrenta dois importantes embate no Congresso em torno das reformas previdenciária e trabalhista.

Na Reforma Previdenciária o Governo teria recuado, ao retirar dessa os servidores públicos estaduais e municipais. Não os retirou das regras gerais, mas deixou que os Estados regulem as condições específicas nas suas Constituições Estaduais. 

Teria sido por pressão de congressistas da base aliada, preocupados com as suas bases eleitorais nos Estados. Se foi isso é uma "vitória de Pirro": uma vitória onerosa e inútil.

Seria uma ação personalista, egoista e de impactos duvidosos. Do ponto de vista das contas públicas, será apenas o adiamento das repercussões, o que já está previsto para os servidores federais. O tal "déficit" da seguridade social ou da previdência (no sentido amplo) não vai se alterar até 2018, com ou sem a inclusão dos servidores públicos estaduais e municipais.

Os deputados federais da base aliada rebelados só estão pensando na sua reeleição em 2018 e acham que protegendo os servidores públicos dos respectivos Estados ficarão melhor com os seus eleitores. Pode até ser, mas podem estar caindo na armadilha do Governo.

O que a área econômica do Governo quer mesmo é aumentar - de imediato - tributos. Quer arrecadar mais ainda em 2017, prosseguindo com o aumento da carga tributária pelos anos seguintes. 

Para isso faz um "terrorismo numérico" e só espera derrotas na aprovação da Reforma Previdenciária para se justificar e dizer que diante da não aprovação ou aprovação "desfigurada", o Brasil só tem uma opção: aumentar os impostos.

À pressão dos rebeldes das bases aliadas haverá a pressão oposta dos que não querem o aumento dos tributos. O jogo não é não simples e linear, mas esse é o fundamento principal do jogo: quem vai pagar a conta?

Reduz a conta com os servidores públicos ou todos vão pagar a conta sem redução.

quarta-feira, 22 de março de 2017

O lado feio do agronegócio

O agronegócio só toma conta das primeiras páginas dos jornais, capa de revistas semanais e o maior tempo dos noticiários de televisão quando envolvido em escândalos. 

O setor e o Brasil terão grandes prejuízos, com a irresponsabilidade da Polícia Federal, que fez e está fazendo um grande trabalho de combater a corrupção na Administração Pública.

Mas a forma de divulgação foi - ora amplamente reconhecido - um desastre de imagem. Pela seu estardalhaço e generalização, colocando fraudes cometidas por pequenos e médios frigoríficos com falhas cometidas pelas duas maiores empresas. Não há dúvida de elas cometeram irregularidades, pelos escalões menores.

Pode, no entanto, ter o seu lado positivo. A sociedade está sendo informada da importância do agronegócio brasileiro no mundo, com dezenas de países estabelecendo restrições às importações de carnes e derivados. Não é só a China. 

O setor reagiu mal aos acontecimentos, adotando posições defensivas e de repetição de chavões que a sociedade pouco aceita.

Ainda tem a oportunidade de fazer do "limão uma limonada". Deveria demonstrar a importância da cadeia de valor da pecuária brasileira para a alimentação do mundo, as sucessivas conquistas de mercado, os avanços tecnológicos. O que precisa ser mostrada é a seriedade do seu trabalho. 

Se não o foi totalmente anteriormente, tem que pedir desculpas públicas, mostrar o que foi feito ou está sendo feito para corrigir. 

O que a sociedade brasileira, os consumidores esperam das grandes empresas é um "desculpem a nossa falha". E no caso da JBF é que seus porta-vozes, Tony Ramos e Fátima Bernardes o façam.

terça-feira, 21 de março de 2017

A carne é fraca

Um fato recorrente na história do Brasil foi transformado na "maior operação nunca antes realizada" pela Polícia Federal, gerando grande insegurança na população e graves prejuízos econômicos a empresas e investidores.

A história da indústria da alimentação brasileira registra casos pontuais de adulteração de leite, de derivados de carne, de contaminação de bebidas e outros que vão para as páginas dos jornais e para os tempos do noticiário da televisão e somem pouco tempo depois.

Esta operação teve maior repercussão, pelo desnecessário estardalhaço de delegados da Polícia Federal, na busca dos seus momentos de fama, e por ter atingido marginalmente as maiores empresas brasileiras de alimentos industrializados e grandes exportadoras. 

O mercado mundial é sacudido, volta e meia com a epidemia da "vaca loca" na Europa, da gripe aviária em vários países desenvolvidos, da carne de cavalo em hamburgers na China, e vários outros. 

Em todos os casos, gerando grandes prejuízos à cadeia produtiva dos envolvidos e dando margem à emergência de novos protagonistas. O Brasil se beneficiou dessas epidemias tornando-se um grande, se não o maior, exportador mundial de proteína animal. 

Agora a sua maior epidemia teve mais um das suas áreas reveladas: a corrupção que grassa em toda a administração pública brasileira, evidenciada na inspeção da produção alimentar.

Envolve conluios entre pequenos e médios produtores e fiscais corruptos no sul do Brasil, mas acabou respingando nas duas maiores empresas, 

Há várias dimensões envolvidas no episódio, mas a mais importante é a persistência, a resiliência do modelo de extorsão praticado pelos agentes públicos sobre empresas de menor porte. 

O modelo tem como pano de fundo um Estado altamente burocratizado que em nome da defesa da população, cria dificuldades para agentes corruptos, em seu nome, vender facilidades.

Não há no Brasil, nenhuma empresa 100% regular em relação a todo o emaranhado de leis, decretos, resoluções, portaria e outras normas. Há sempre uma pequena falha que a empresa não atentou, mas o fiscal corrupto sim.

E alguma empresa é vítima desse fiscal, que nunca age sozinho. Sempre se forma uma quadrilha. Não corresponde à totalidade da fiscalização, com grande parte isenta da epidemia, mas há também sempre focos. Em determinadas circunstâncias esse foco se amplia e até se alastra para outras áreas e regiões.

A empresa vítima da extorsão paga a propina ou não tem condições de continuar a sua atividades. Se denunciar, poderá ter o seu momento de fama, mas fica condenado "ad eternum", impedido - na prática - de exercer atividade empresarial.

Iniciado por extorsão, chantagem ou concussão, se consolida e se torna a prática comum. Pode ser revertido a um processo de suborno. 

O modelo é o mesmo, seja com relação às grandes construtoras de obras públicas, como aos pequenos e médios frigoríficos e produtores de derivados de carne. 

O modelo continuou sendo utilizado mesmo depois de deflagrada a Operação Lava-Jato. A Operação Carne Fraca é um dos "filhotes" daquela operação e teve como foco fiscais corruptos inseridos dentro do Ministério da Agricultura. Liderados por funcionários que chegam aos cargos de chefia, por indicações ou apoio político.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Sucesso, sem dúvida, mas não estrondoso

A licitação da concessão dos 4 aeroportos  foi, sem dúvida um grande sucesso, apesar do ceticismo. Mas não foi estrondoso, tampouco é uma sinalização segura do sucesso das próximas concessões fora do setor.
As explicações estão nas estratégias empresariais dos concorrentes que atuam todos num mesmo setor. 

Fraport e Zurich não se interessaram pelo aeroporto de Salvador, que exigia maior volume de investimentos, incluindo obras civis, com a construção de uma segunda pista.
Zurich já presente no Brasil, se ateve a Florianópolis. 
A Fraport se interessou por Fortaleza e Porto Alegre, levando as duas, disputando com a Vinci. No sul houve maior disputa, o que elevou o ágio a 852%.
Já em Fortaleza a Vinci desistiu de prosseguir a disputa, preferindo ficar com Salvador, uma vez que só poderia ficar com uma na mesma região. 
Ela errou na estratégia. Apresentou propostas competitivas para Fortaleza e Porto Alegre, o que levou à disputa a viva voz e excessiva em Salvador. Sem concorrentes poderia ter ganho, sem ágio. Mas achou, iria enfrentar outras propostas. Poderia ter ganho Fortaleza e desistido de Salvador. Comprometeu-se desnecessariamente com cerca de 300 milhões de reais a mais. Errou duas vezes, para satisfação do Governo. Representa a maior parte do ágio. 

Vão levar muito tempo para recuperar os investimentos.

Mas os objetivos delas, pelas declarações dos seus dirigentes, é se posicionar no mercado brasileiro para oportunidades futuras: no mesmo setor. Os prazos das primeiras concessões são curtos e há operadoras precisando vender suas posições e outros aeroportos.

Ainda há joias da Coroa no cofre da Infraero. 








domingo, 19 de março de 2017

Um porto madero incompleto

Recife está aproveitando os investimentos públicos e privados na tradicional área portuária, para buscar a revitalização do seu centro histórico. 

Na área portuária, junto ao Marco Zero reformou e modernizou os armazéns, para instalar lojas e restaurantes, à semelhança do Puerto Madero, em Buenos Aires: o Porto Novo Recife.

Agradável e seguro na parte interna, não oferece as mesmas condições na parte externa. Ao lado de uma avenida de grande movimento, escuro e calçadas irregulares, é inseguro e pouco convidativo para acesso.

Apesar de outras intervenções na Ilha do Recife,  o conjunto gastronômico do Porto ainda não promoveu a revitalização da região. 

A revitalização da região portuária de Buenos Aires, não decorreu apenas do conjunto gastronômico-cultural de Puerto Madero, o ícone mais visível. No entorno foi desenvolvido um grande polo empresarial, com novos prédios para escritórios  - visível na foto ao lado -  e, paralelamente, um conjunto de parques. 

O potencial germinador de um "Porto Madero" depende das intervenções pública e privadas no entorno. No caso do Recife, um dos poucos empreendimentos imobiliários implantados foi envolto por grandes contestações de movimentos sociais e ambientais: as Torres Gêmeas na área do Cais Estelita.  Não teve sequência na modernização imobiliária.

A revitalização da área do Porto do Recife, corre o risco de sucumbir à continuidade da crise econômica. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Aeroportos desnacionalizados

Quatro aeroportos brasileiros de médio porte, foram duplamente desnacionalizados. 

De uma parte foram desestatizados, com a transferência da sua gestão por uma empresa estatal - a Infraero - para empresas privadas. 

De outra, porque todos os novos gestores são empresas estrangeiras, sem a participação de empresas nacionais.  

As concessões deixam de ser vistas, apenas, como uma contratação de obras públicas, segundo nova modalidade, para serem percebidas como uma verdadeira concessão de serviços públicos.

Todas as vencedoras são tipicamente empresas prestadoras de serviços, focadas na gestão e operação de aeroportos. Não são empresas de construção, sejam nacionais, ou estrangeiras. A sua cultura, a sua visão de negócios é de "opex" e não de "capex".


Os resultados do leilão mostram que os investidores estrangeiros estão mais confiantes em relação ao futuro do Brasil, do que os brasileiros. Apesar a superestimação das demandas futuras, apresentadas pelo Governo, a estrangeiras estariam apostando numa demanda ainda maior. 


quarta-feira, 15 de março de 2017

Novidades já esperadas nas novas concessões

Na licitação para a concessão de um trecho rodoviário em São Paulo, ocorreu um dos cenários previstos, embora o não desejado pelo Governo.

As grandes construtoras, direta ou indiretamente, estudaram mas não apresentaram propostas. Apenas uma construtora ficou para a disputa final. 

A vencedora foi um fundo de investimento: o Pátria.

O mercado está mostrando o que o Governo e analistas resistem em reconhecer. Concessão de rodovia não é uma modalidade alternativa de contratação de obra pública.

Concessão de rodovia, como as demais na área de aeroportos, saneamento e outros, são empreendimentos com resultados de longo prazo, nos quais a construção é o investimento inicial necessário para gerar os resultados futuros. Não é o objeto principal da concessão.

A visão predominante do pretendente da concessão é o quanto a operação vai render ao longo do contrato da concessão? E o nível de investimento será avaliado pelos impactos sobre os resultados. 

As obras serão um meio para a obtenção dos resultados. 

Supostamente uma empreiteira ao entrar num concessão teria o interesse em maximizar o volume de obras e a margem sobre as mesmas. 

O foco da construtora é o CAPEX. O do gestor de investimentos o OPEX.

A principal presunção do gestor é de que sem um sócio construtor, o gestor do fundo teria mais opções de contratação da obra, podendo obter valores menores de investimentos.

A mudança do perfil do concessionário tem implicações sobre o projeto.

O fundo de investimentos precisa ter um bom projeto completo para poder ter uma boa contratação da construtora e assegurar o seu cumprimento dentro do orçamento estabelecido. Ele precisa de um projetista que considere todos os aspectos para evitar imprevistos que não só aumentem a necessidade de investimentos, como atrasem as obras e o início dos recebimentos.

Mas ele ficará no dilema de contratar o projeto com o menor preço possível, ou pagar bem para ter mais segurança. 


Corte na previdência pública ou aumento de impostos para todos

Sem ainda digerir a carne fraca o Brasil enfrenta dois importantes embate no Congresso em torno das reformas previdenciária e trabalhista. ...